Antropónimos seta PORTUGAL, D. Francisco de (c. 1483-1549)

1.º Conde de Vimioso.

Nasceu por volta de 1483, fruto da relação mantida entre D. Filipa de Macedo, dama solteira, e D. Afonso de Portugal (filho bastardo de D. Afonso, 4º conde de Ourém e 1º marquês de Valença, e neto de D. Afonso, 1º duque de Bragança). Quando D. Francisco veio ao mundo o estatuto do pai era secular, mas converteu-se em eclesiástico a partir de 1485, em consequência da imposição do bispado de Évora, que lhe foi feita pelo primo e rei D. João II, presumivelmente, com a intenção de controlar o destino de quem orbitara em torno da Casa de Bragança, suprimida em 1483 após a execução do duque D. Fernando.

A condição de bastardo de D. Francisco, da qual se veio a libertar em termos formais, por via de uma carta de legitimação recebida de D. Manuel I, no ano de 1505, era contrabalançada pelos laços de parentesco objectivos que o uniam à família real. Nesta circunstância residirá grande parte da explicação para a sua entrada ao serviço na corte, nos finais do reinado de D. João II.

Foi, naturalmente, sob a égide de D. Manuel I que a figura de D. Francisco começou a alcançar maior projecção e notoriedade. Acompanhou o rei e a rainha D. Isabel na viagem realizada a Castela e a Aragão, em 1498. Doze anos depois recebeu a primeira de uma série de grandes mercês, o senhorio de Vimioso, seguindo-se o condado sedeado na mesma vila (1515) e a alcaidaria-mor de Tomar (1518). Entretanto, em 1516, por transacção concertada com o conde de Vila Nova de Portimão, D. Martinho de Castelo Branco, e confirmada pelo Venturoso, tornou-se um dos vedores da Fazenda do Reino.

Ao longo da sua carreira, D. Francisco teve oportunidade de se associar à empresa da Expansão Portuguesa, tanto numa dimensão prática como ao nível da discussão teórica das linhas de força a desenvolver. Ainda jovem, movido sem dúvida pelo desejo de se aperfeiçoar na arte da guerra e ganhar honra, permaneceu em Arzila, na qualidade de fronteiro, entre 1509 e 1510, e participou na campanha vitoriosa de tomada de Azamor, em 1513. Neste âmbito chegou a assumir o governo da praça quando o líder da expedição, o 4º duque de Bragança, D. Jaime, tornou a solo português.

De acordo com as fontes disponíveis foi, todavia, enquanto vedor da Fazenda e membro do Conselho Real, durante o reinado de D. João III, que os assuntos ultramarinos concitaram a maior intervenção de D. Francisco. Marrocos parece ter sido o domínio geográfico da sua eleição, a avaliar pela vontade que expressou de tratar, em regime de exclusividade, as petições de quem lá servia, pelos relatórios que emitiu a respeito da situação do território e pelos contactos mantidos com uma rede de informadores locais. Dos pareceres que D. João III foi recolhendo, ao longo do tempo, sobre o sentido a dar à presença portuguesa no Norte de África não se conhece nenhum assinado por D. Francisco de Portugal. Com base nos dados acima apresentados e no antagonismo constante que alimentou com outro dos vedores da Fazenda, o primo D. António de Ataíde, 1º conde da Castanheira, adepto do abandono de praças marroquinas, é verosímil supor que advogaria a estratégia da manutenção.

A questão da nomeação para o governo do Estado da Índia, que eclodiu no seio da corte portuguesa em 1541, após a chegada da notícia da morte do vice-rei D. Garcia de Noronha e da sua substituição por D. Estêvão da Gama, marcou um dos pontos altos da relação tensa entre D. Francisco de Portugal e D. António de Ataíde. Logo que soube do sucedido, D. João III nomeou para o lugar Martim Afonso de Sousa, outro primo do conde de Vimioso, e deu-lhe ordem de partida para a Primavera daquele ano. Significava isto retirar a possibilidade a D. Estevão de cumprir um mandato integral de três anos. Neste contexto, D. Francisco de Portugal uniu os seus esforços aos do genro e 2º conde da Vidigueira, D. Francisco da Gama, com o propósito de salvaguardar os direitos do governador em exercício. Já a posição de Martim Afonso de Sousa foi assumida com firmeza pelo conde da Castanheira, tendo acabado por prevalecer sobre a aliança de interesses entre as Casas de Vimioso e da Vidigueira.

Em parte, o desfecho do caso pode ser entendido à luz do favoritismo que D. António de Ataíde recolhia de D. João III e do distanciamento que separava o rei de D. Francisco de Portugal. Apesar de ter recebido do Piedoso a alcaidaria-mor de Vimioso (1530), o senhorio de Aguiar da Beira (1534), a alcaidaria-mor de Pias (1539) e o lugar de camareiro-mor dos príncipes D. Manuel e D. João, D. Francisco sentia e acusava o afastamento entre si e o monarca. O sentimento de marginalização era tão profundo que chegou a endereçar-lhe um memorial dos serviços prestados à Coroa, em que aproveitou para se queixar da falta de remuneração justa dos mesmos.

A última vez em que D. João III teve a intenção de agraciar D. Francisco de Portugal foi em 1543, altura em que lhe propôs que acompanhasse a infanta D. Maria a Castela e lá se quedasse como mordomo-mor da Casa da mesma após a celebração do seu casamento com o príncipe herdeiro D. Filipe. A proposta foi, no entanto, declinada pelo conde, visto que o dito consórcio matrimonial não lhe merecia a aprovação pessoal.

Faleceu no dia 8 de Dezembro de 1549, tendo o corpo sido depositado na capela-mor do convento de Nossa Senhora da Graça, em Évora.

Bibliografia:
FREIRE, Anselmo Braamcamp, Brasões da Sala de Sintra, 3 vols., Lisboa, IN-CM, 1996. PELÚCIA, Alexandra, Martim Afonso de Sousa e a sua Linhagem: A Elite Dirigente do Império Português nos Reinados de D. João III e D. Sebastião, Lisboa, FCSH-UNL, 2007 (dissertação de doutoramento policopiada). SOUSA, D. António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, vol. X, Coimbra, Atlântida Livraria Editora, 1953. TOCCO, Valeria, «D. Francisco de Portugal, 1º Conde de Vimioso: Documentos para uma Biografia», in Poesias e Sentenças de D. Francisco de Portugal (1º Conde de Vimioso), Lisboa, CNCDP, 1999, pp. 9-35.

Autor: Alexandra Pelúcia


  Enviar a um amigo Enviar a um amigo Imprimir Imprimir