Antropónimos seta LACERDA, Manuel de

Manuel de Lacerda, fidalgo da Casa Real, filho de Reimão de Lacerda (filho de Nuno de Lacerda, alcaide-mor da Vidigueira e de Vila de Frades) e de Isabel Pereira (filha de Gonçalo Cardoso, detentor de um morgadio e vedor da rainha D. Leonor), parte para o oriente em 1506, sendo que desde cedo se destaca. Logo em 1507, ainda antes da chegada à Índia, salienta-se no ataque a Brava, na costa africana, onde obtem a condição de cavaleiro. Serve no Mar Vermelho, onde participa na tomada da Ilha de Socotorá e na construção da respectiva fortaleza. De seguida junta-se à esquadra de Albuquerque no Golfo Pérsico, com o intuito de tomar Ormuz.

Aquando do conflito entre D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque, Manuel de Lacerda não terá afirmado veementemente a sua posição, embora indícios existam de que teria tomado o partido do último, o que é demonstrado pelos acontecimentos posteriores. Numa tentativa de privar Albuquerque de alguns dos seus apoiantes, o vice-rei D.Francisco de Almeida destaca Manuel de Lacerda para a defesa de Cananor, mantendo-o assim afastado do seu rival.

A chegada de D. Fernando Coutinho à Índia em 1509, e o consequente afastamento de Francisco de Almeida, assim como o de muitos dos seus apoiantes, provoca um vazio administrativo nas hostes portuguesas. Esta situação, assim como o apoio prestado a Albuquerque, permite a Manuel de Lacerda ascender a nível de importância e, após a primeira tentativa de tomada de Calicut, é feito capitão.

Apoiante de Albuquerque em relação à tomada de Goa, participa no primeiro assalto em Fevereiro de 1510. Após a retomada da cidade por forças do sultão de Bijapur, Manuel de Lacerda passa pela provação da passagem do Inverno no estuário do rio Mandovi, durante a qual é ferido numa surtida ao castelo de Panguim, numa tentativa de minorar o estrago feito pela artilharia deste na armada portuguesa.

Após um episódico desentendimento com Afonso de Albuquerque, devido ao método de execução de um fidalgo, Manuel de Lacerda torna-se responsável pela guerra de corso no mar Arábico, até Novembro de 1510, quando se dá o segundo assalto a Goa. Durante a batalha, Manuel de Lacerda destaca-se novamente, ao ser atingido por uma flecha na face. Ao invés de soçobrar aos ferimentos, continua a lutar, pelo que recebeu de Afonso de Albuquerque um beijo na face.

Quando em 1511, Afonso de Albuquerque parte com o intuito de tomar Malaca, deixa Manuel de Lacerda na Índia como capitão-mor da armada. Foi nesta qualidade que acudiu à cidade de Goa aquando do assédio das forças do Idalcão através do passo de Benastarim, tendo partilhado o comando da defesa com Diogo Mendes de Vasconcelos, que, tendo sido encarcerado por Albuquerque, era o único capaz de comandar a guarnição de Goa após a morte do seu capitão, Rodrigo Rebelo. A substituição deste por Manuel de Lacerda, na eventualidade da sua morte, teria sido prevista por Afonso de Albuquerque, mas devido a um furto, a ordem nunca terá sido conhecida, sendo a sua efectivação um acaso. Aquando do retorno de Afonso de Albuquerque, em Fevereiro de 1512, a situação terá sido regularizada. O assédio do Idalcão a Goa continuou até Novembro de 1512, altura em que foi tomado o forte de Benastarim, após a chegada de reforços um mês antes.

Após a situação de Goa se encontrar regularizada, Manuel de Lacerda foi afastado do seu posto por Albuquerque, uma vez que este não estava disposto a prescindir do serviço do fidalgo na expedição ao Mar Vermelho em 1513, com o intuito de tomar Adém. Apesar disto, parece ter restado algum ressentimento por parte de Manuel de Lacerda para com Afonso de Albuquerque, devido ao seu afastamento. Ainda assim, em Fevereiro de 1513 parte para o Mar Vermelho, ao comando da nau Frol da Rosa, tendo participado no desaire de Adém. No rescaldo do fracasso da tomada de Adém, Manuel de Lacerda, assim como outros capitães, é investigado, mas da investigação nada advem.

Em 1514 regressa ao reino, com o intuito de reclamar as mercês às quais se acha merecedor, embora só as tenha recebido mais tarde, em 1517, devido ao clima político que pautava a corte de D. Manuel após o fracasso de Adém. Nesse mesmo ano regressa à Índia, não só ordenado para o comando de um navio, e respectivas quintaladas, como também ia provido na capitania de Calicut. Contudo, aquela que lhe foi a maior mercê atribuída terá sido a capitania da fortaleza do Mar Vermelho, tivera esta sido realizada. De 1517 a 1519 serve sob as ordens do governador Lopo Soares da Albergaria, até que é transferido para Calicut, onde ocupa o cargo de capitão da fortaleza até 1522, data do seu regresso a Portugal. Um ano depois, em 1523, recebe de D. João III a capitania de Goa, mas ao invés de viajar para o Oriente, permanece no reino até 1527, ano em que volta a partir como capitão-mor da armada da Índia. Ao largo da ilha de S. Lourenço, o navio em que viaja encalha, tendo os náufragos procurado refugio na dita ilha. Nela desapareceu Manuel de Lacerda, tendo assim um fim incerto.

A carreira de Manuel de Lacerda é extraordinária na medida em que exemplifica a progressão de nobre português até às mais altas instâncias dos cargos ultramarinos. Por outro lado, o percurso de vida da própria personagem permite tirar ilações acerca das lógicas que se encontravam por detrás das acções e motivações dos primeiros portugueses a partirem para oriente.

Bibliografia:
PELÚCIA, Alexandra; Manuel de Lacerda, Guerreiro e Náufrago, in A Nobreza e a Expansão: Estudos Biográficos, coor. João Paulo Oliveira e Costa, Cascais, Patrimonia, pp. 253-271.

Autor: Elias Pinheiro


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