Antropónimos seta ZURARA, Gomes Eanes de (1410/20-1474)

Nascido provavelmente entre 1410 e 1420, Gomes Eanes de Zurara foi o segundo cronista oficial português, cargo que ocupou desde 1454 até à sua morte, em 1474. Tendo recebido instrução literária, no seguimento da sua ida para a corte de D. Afonso V, pode afirmar-se que Zurara demonstra uma assinalável influência humanista, uma vez que entre o grande número de autores que cita se encontram vários clássicos (como Homero, Hesíodo, Tito Lívio, Cícero e muitos outros), e as suas obras revelam uma erudição que raramente encontra paralelo nos autores portugueses coetâneos.

A sua primeira obra foi a Crónica da Tomada de Ceuta, terceira parte da Crónica de D. João I. De seguida, escreveu a Crónica da Conquista da Guiné, expondo os feitos do Infante D. Henrique, e depois a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, e a Crónica do Conde D. Duarte de Meneses.

Tendo-se centrado, ao produzir as suas obras, no movimento expansionista que marcava na sua contemporaneidade, a vida política, económica, cultural e social do Reino de Portugal, e que o singularizava e prestigiava, Gomes Eanes de Zurara é um autor essencial para o estudo do Portugal de Quatrocentos, não só por as suas obras nos apresentarem importantes dados para a compreensão da fase inicial da Expansão Portuguesa, mas também por proporcionarem um maior entendimento sobre a cultura e mentalidades deste período.

O cronista começa a sua Crónica da Conquista de Ceuta mostrando a inquietação que o acordo de Ayllon, de 1411, o qual estabelecia um período de vinte anos de paz entre Portugal e Castela, provocou no seio dos jovens nobres. De facto, a guerra era, mais do que a forma de afirmação social da nobreza, a sua principal função, a par do conselho que deveriam prestar ao monarca, pelo que finda a guerra, os nobres não tinham como ganhar honra e exercer o seu mester, receando perder importância. Para além disso, a paz absoluta era preocupante para o Reino, uma vez que numa época em que facilmente deflagravam conflitos bélicos, os “bellatores” partiriam para outros reinos, onde pudessem fazer a guerra, ou ficariam destreinados.

Deste modo, com o tratado de paz, colocava-se um claro problema social e político, ilustrado por Zurara através dos infantes, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, que tendo já entrado na idade adulta, ainda não haviam sido armados cavaleiros. De facto, face a uma grande Nobreza constituída pelos heróis de Aljubarrota, precisavam urgentemente de se afirmar como futuros condutores do Reino e adquirir legitimidade política através da guerra. Esta narrativa é bastante relevante, na medida em que não só nos apresenta causas sociais e políticas que, associadas a outras, conduziram à decisão de conquistar Ceuta, mas também permite uma grande compreensão das dinâmicas sociais da aristocracia medieval. Para além disso, na mesma crónica, o ideal medievo de Cruzada, inculcado na cultura política da época e que movia D. João I, D. Duarte, e principalmente, D. Henrique, também está muito presente.

Este ideal de Cruzada será aprofundado na sua obra ulterior, a Crónica da Conquista da Guiné, em que o autor sintetiza os motivos que levaram o Infante D. Henrique a promover a ultrapassagem do Cabo Bojador, limite meridional das águas navegadas pela Cristandade. Aponta, assim, como motivações do Infante, a curiosidade geográfica, (indissociável da procura de mercados onde os portugueses pudessem comerciar sem concorrência), o desejo de avaliar até onde ia o poder muçulmano em África, a busca de aliados para a Guerra Santa (nomeadamente, o Preste João, o poderoso e lendário rei cristão que existiria em África, a sul do Magrebe islâmico) que D. Henrique considerava, não só justa e legítima, como também o seu dever enquanto príncipe cristão, e por fim, o ambição de expandir a fé cristã. Conclui-se, deste modo, que causas religiosas e ideológicas, para além das evidentes ambições económicas e estratégicas, conduziram ao despontar dos Descobrimentos, movimento de carácter complexo e multifacetado.

Para além de mostrarem a importância incontornável da figura de D. Henrique para os Descobrimentos, as obras de Zurara comprovam que, no início, a Expansão se revestiu de um forte pendor aristocrático, o que está bem patente nas crónicas de D. Pedro e D. Duarte de Meneses, respectivamente, capitão de Ceuta e capitão de Alcácer-Ceguer. Para além disso, à semelhança de outras obras de literatura dos Descobrimentos, revelam o interesse comercial e económico que desde cedo motivou a exploração dos mares, e demonstram as dificuldades iniciais no relacionamento com as aguerridas populações autóctones da costa da Guiné. Por fim, ainda dão conta de aspectos pessoais da vida dos príncipes de Avis, tais como a complexa personalidade de D. Henrique, e o sentimento fraternal que o unia a D. Duarte e a D. Pedro.

Importa, também, abordar o rigor que Gomes Eanes de Zurara evidenciou enquanto narrador de acontecimentos passados. Efectivamente, revela alguma preocupação com a verdade contida nos factos que transmite, uma vez que embora tenha sido contemporâneo de grande parte dos acontecimentos que relata, não dispensa a utilização de diversas fontes de informação. Assim, para a produção da Crónica da Conquista da Guiné recolheu todos os testemunhos orais que conseguiu, e utilizou a documentação de Afonso de Cerveira, um secretário ou escrivão de D. Henrique. De forma a escrever a Crónica do Conde D. Duarte de Meneses, por seu turno, deslocou-se mesmo ao Norte de África, onde recolheu testemunhos orais de D. Henrique de Meneses, filho do capitão de Alcácer-Ceguer, bem como de outros portugueses e muçulmanos que habitavam esta praça marroquina.

Sobre o protagonismo que concedeu a D. Henrique na Crónica da Conquista de Ceuta, refira-se que não obstante o facto de relatar ao pormenor todos os movimentos do Infante, o cronista não deixa de o criticar, apontando a inconsequência e excessiva ambição das suas acções. De facto, Zurara mostra que a conquista da cidade não se deveu à acção de D. Henrique, mas sobretudo à de D. Duarte. Contudo, os actos temerários daquele valeram-lhe o louvor por parte dos seus contemporâneos, tendo mesmo sido assaz valorizados por D. João I.

Quanto à imagem profundamente devota que Zurara transmitiu a respeito de D. Henrique, o qual apresentou como um príncipe motivado pelo ideal de Cruzada, também não temos razões para afirmar que esta foi forjada pelo cronista, uma vez que a documentação avulsa não a contraria, e até o veneziano Alvise Cadamosto traça um retrato muito semelhante do Infante, embora apenas tenha mantido com ele relações comerciais, e o seu relato não se paute por qualquer intenção de o glorificar. Assim, podemos apenas assumir que se essa não correspondia a uma imagem verdadeira de D. Henrique, pelo menos foi a que este cultivou e transmitiu aos homens do seu tempo.

Como conclusão, apesar de tradicionalmente a historiografia relegar Zurara para a sombra da grande figura de Fernão Lopes, ao recordá-lo como indiferente às dinâmicas sociais, mostrando uma concepção individualista da sociedade e enaltecendo apenas os grandes feitos da aristocracia guerreira, felizmente alguns autores actuais começam a reconhecer a este cronista o seu devido valor. Na verdade, se sua obra não deve ser lida como se apresentasse verdades indiscutíveis, uma vez que lhe está associada toda a subjectividade própria de qualquer ser humano, também nos dá conta de muitos aspectos importantes da Expansão Portuguesa, bem como da cultura e mentalidades do Portugal do século XV.

Bibliografia:
CARVALHO, Margarida Barradas, “L’ideologie religieuse dans la «Crónica dos Feitos de Guiné» de Gomes Eanes de Zurara”, sep. de Bulletin des études portugaises, t. XIX, 1956. COSTA, João Paulo Oliveira e, Henrique, o Infante, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009 (no prelo). ZURARA, Gomes Eanes de, Crónica da Conquista de Ceuta, introdução e notas de Reis Brasil, Mem Martins, Publicações Europa-América, cop. 1992. ZURARA, Gomes Eanes de, Cronica do Descobrimento e Conquista de Guiné escrita por mandado de ElRei D. Affonso V (...), introdução, ilustração e notas do Visconde de Santarém, Paris, J. P. Aillaud, 1841.

Autor: Catarina Simões


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