Túmulo D. João I
Foto|Alexandra Pelúcia
 

Antropónimos seta JOÃO I, D. (1357/r.1385-1433)

10.º Rei de Portugal

D. João I nasceu em Lisboa, a 11 de Abril de 1357, fruto ilegítimo da ligação entre o príncipe D. Pedro e Teresa Lourenço. Último filho de D. Pedro a nascer, cerca de um mês antes de este ser alçado ao trono português, o pouco que é conhecido sobre os primeiros anos da sua vida assenta nas informações contidas na Crónica de D. Pedro e na Crónica de D. Fernando, ambas da autoria de Fernão Lopes.

Ainda criança foi-lhe entregue o mestrado da Ordem de Avis tendo, nos anos subsequentes, participado na vida da corte do seu meio-irmão, o Rei D. Fernando. Após a morte deste rei, em 1383, o Mestre de Avis emerge como figura central da crise dinástica de 1383-85. Aclamado como Defensor e Regedor do Reino, pelos povos de Lisboa, D. João enfrenta nos anos seguintes o antagonismo dos partidários de D. Beatriz, filha de D. Fernando, e do seu marido o rei Juan I de Castela. A subsequente invasão castelhana foi travada pelos desaires da batalha de Atoleiros e do cerco de Lisboa, durante o ano de 1384. O ano seguinte foi marcado por dois acontecimentos chave da vida de D. João. Primeiramente as Cortes, reunidas em Coimbra, levaram ao seu alçamento ao trono, no dia 6 de Abril de 1385. O Mestre de Avis era assim aclamado como rei de Portugal, inaugurando uma nova dinastia. Em seguida, no dia 14 de Agosto de 1385, o novo rei alcançava a sua maior vitória militar, derrotando as forças castelhanas, comandadas pelo próprio Juan I, na batalha de Aljubarrota.

Apesar desta vitória, as primeiras décadas do reinado de D. João I foram marcadas pelo prolongamento do conflito com Castela, situação que se manteve até à assinatura, em 31 de Outubro de 1411, do acordo de paz de Ayllón. A paz então alcançada representava, no entanto, para D. João I o confronto com novas oportunidades e novos desafios. Se, por um lado, o Reino se via então livre de uma situação de guerra endémica contra os seus vizinhos castelhanos, por outro deparava-se com novos problemas. O primeiro de entre estes era o bloqueio social que a nobreza, que durante décadas acumulara honras e proveitos por via da guerra contra Castela, enfrentava em caso de uma paz de longo prazo. À inquietação de um grupo social tão importante como a nobreza tinha o rei que encontrar forma de responder, sobretudo num contexto em que a nova dinastia necessitava de se afirmar politicamente e de consagrar a sua legitimidade.

Face a esta conjuntura surgia a possibilidade de retomar projectos de luta contra o infiel, em Granada ou em Marrocos, que remontavam pelo menos ao reinado de D. Afonso IV. Neste contexto, D. João I inclinou-se inicialmente para uma expedição dirigida ao Reino de Granada, no entanto a oposição castelhana a esta intenção levou a que se tomasse como objectivo a cidade marroquina de Ceuta, alvo apetecível pela sua riqueza e localização estratégica. Os anos seguintes foram então marcados pelo debate e planeamento de uma expedição militar a Ceuta, objectivo que se manteve envolto em secretismo, conhecido apenas de alguns dos conselheiros mais próximos do rei, nomeadamente os seus filhos. No início do Verão de 1415 a expedição estava pronta, tendo a sua partida sido adiada pelo falecimento da rainha D. Filipa, vitima da peste que assolava Lisboa. Zarpando de Lisboa a 25 de Julho, sob o comando do próprio D. João I acompanhado pelo herdeiro da Coroa D. Duarte e pelos infantes D. Pedro e D. Henrique, a armada alcançou Ceuta no dia 21 de Agosto, lançando de imediato o ataque e submetendo a cidade após algumas horas de combate.

A tomada de Ceuta representava o culminar de um projecto pessoal de D. João I, secundado pelo entusiasmo dos infantes, que procurava na vitória sobre o tradicional inimigo muçulmano a consagração da sua dinastia e a afirmação do reino de Portugal perante a Cristandade. Foi igualmente por sua vontade que, nos debates que se seguiram à conquista da cidade, foi decidido ocupá-la permanentemente, tendo com este propósito sido deixada no local uma considerável guarnição, capitaneada pelo conde de Viana, D. Pedro de Meneses. D. João I acrescentava assim aos títulos de Rei de Portugal e dos Algarves, o de “Senhor de Ceuta”.

Regressado ao Reino, após ter permanecido uma semana na sua nova conquista, D. João I não mais voltaria a pisar solo africano. No entanto, a defesa de Ceuta e a prossecução do combate ao infiel seriam preocupações constantes do resto do seu longo reinado. Logo após o seu regresso a Portugal, o rei propunha a Castelhanos e Aragoneses a cooperação para uma eventual conquista de Granada. Deparando-se com o desinteresse dos seus vizinhos, voltou a orientar a sua política para Marrocos. A importância de Ceuta foi confirmada em inícios de 1416, com a nomeação do infante D. Henrique como provedor e defensor da cidade. Planeava-se a continuação da conquista do Reino de Fez, para a qual foi concedida uma nova bula de cruzada em Maio de 1418. Estes projectos acabaram, contudo, por ser travados pelo desencadear de uma ofensiva conjunta dos reinos de Granada e de Fez que, entre 1418 e 1419, assediaram Ceuta obrigando D. João I a enviar uma armada em seu auxílio. A possibilidade de novas expedições em Marrocos tornou-se ainda mais difícil devido aos desenvolvimentos no reino de Castela afectado a partir de 1420 por sucessivos conflitos internos, posteriormente agravados pela intervenção aragonesa e do reino de navarra. A instabilidade peninsular obrigou D. João I a reforçar as fronteiras do Reino contra potenciais invasões e a orientar os seus esforços no sentido de assegurar a neutralidade do Reino no quadro dos conflitos ibéricos, condicionando assim a possibilidade de novas conquistas em Marrocos durante mais de uma década.

As dificuldades que impossibilitavam novas campanhas militares no Norte de África não impediram, no entanto, que, nos anos que se seguiram à tomada de Ceuta, o reinado de D. João I tenha assistido ao lançamento de novos eixos de expansão ultramarina. Retomando as reivindicações de D. Afonso IV de soberania sobre as ilhas atlânticas, nomeadamente sobre o arquipélago das Canárias, houve uma tentativa de explorar e ocupar os arquipélagos adjacentes a Portugal e de reconhecer a costa atlântica de Marrocos. Estes novos rumos de expansão decorreram predominantemente de acções coordenadas pela Casa do infante D. Henrique e enquadradas pela Coroa. Neste contexto as ilhas da Madeira e de Porto Santo, já longamente conhecidas pelos navegantes europeus, foram exploradas pelas embarcações de João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz de Teixeira, entre 1418 e 1419. Em meados da década de 1420 avançava-se para uma ocupação efectiva destes territórios e para o seu povoamento sistemático, no âmbito de instruções do próprio rei. Porventura devido às navegações da Madeira para o Reino começava, alguns anos mais tarde, o reconhecimento de algumas ilhas dos Açores. Nestas viagens de exploração, em que se destacam a de Diogo de Silves em 1427 e as de Gonçalo Velho em 1431 e 1432, estiveram novamente envolvidos fidalgos da Casa do infante D. Henrique. As reivindicações sobre a soberania das Canárias ressurgiram igualmente nestes anos sendo que, no ano de 1424, uma armada financiada pelo infante e comandada por D. Fernando de Castro, foi enviada ao arquipélago, sem no entanto conseguir alcançar resultados palpáveis. As embarcações portuguesas procuram igualmente explorar a costa africana, sobretudo após a passagem do Cabo Não em 1419, mas estas expedições apenas se tornaram frutuosas após a dobragem do Cabo Bojador, já em 1434.

O rumo destas movimentações expansionistas decorreu de protagonistas vários, dinamizados essencialmente pelo infante D. Henrique. No entanto, apesar de a sua intervenção directa ser limitada, D. João I mantinha-se informado e atento aos seus desenvolvimentos, agindo quando necessário e mantendo o controlo supremo sobre todas as decisões políticas.

Em finais de 1431 a ameaça de conflito ibérico, que obrigara à suspensão de qualquer projecto de Cruzada, dissipou-se com a assinatura de um tratado de paz perpétua entre Portugal e Castela. Encontravam-se então reunidas as condições para uma nova expedição contra o infiel. Esta possibilidade era, no entanto, dificultada pela avançada idade do rei, que já ultrapassara os 70 anos de idade, e pelos custos cada vez mais elevados da manutenção de Ceuta, que levavam a que a opinião dos povos se inclinasse cada vez menos para novas, e dispendiosas, campanhas militares. Contudo, à medida que o reinado de D. João I se encaminhava para o seu final, a possibilidade de uma investida de grande dimensão no Norte de África voltou a ser equacionada. O Rei pretenderia liderar ele próprio a expedição, mas a morte acabou por se antecipar, encontrando-o em Lisboa, no dia 13 de Agosto de 1433.

O longo reinado de D. João I pode ser, consequentemente, visto como um período de lançamento da expansão ultramarina portuguesa, de que a conquista de Ceuta em 1415 é normalmente considerada o momento inicial. Esta expansão assentou não só na recuperação de pressupostos ancestrais, como o combate ao infiel, mas também em novas linhas de força, nomeadamente o povoamento das ilhas atlânticas e a exploração da costa africana. Estes rumos, que tiveram a sua origem nos anos entre 1415-1433, marcariam a longo prazo o movimento de expansão ultramarina português.

Bibliografia:
COELHO, Maria Helena da Cruz, D. João I, Lisboa, Círculo de Leitores, 2005. COSTA, João Paulo, Henrique, o Infante, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009. THOMAZ, Luís Filipe, “A evolução da política expansionista portuguesa na primeira metade de Quatrocentos” in De Ceuta a Timor, Lisboa, Difel, 1994, pp. 43-147.

Autor: José Ferreira


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