Antropónimos seta TAVARES, António Raposo

Bandeirante, chefiou a “Bandeira dos Limites” que ligou São Paulo a Belém do Pará entre 1648 e 1651. Nasceu em Beja por volta de 1598 e morreu em São Paulo em 1658.

Filho de Fernão Vieira Tavares, provedor da fazenda, e de Francisca Pinheiro da Costa Bravo, Raposo Tavares partiu para o Brasil acompanhando o pai que, em 1618, foi nomeado para o governo da capitania de São Vicente como mandatário do conde de Monsanto. Em 1622, estabeleceu-se em São Paulo, onde casou com Beatriz Furtado de Mendonça e foi feito capitão de ordenança.

A sua actividade como bandeirante terá começado em 1627, ano em que provavelmente protagonizou uma expedição ao sertão com Paulo do Amaral.

No ano seguinte, Tavares organizou uma bandeira contra as missões jesuítas do território do Guairá (na região do Paraguai), que contou com a participação de membros da Câmara de São Paulo e das milícias da cidade. Desde 1610 que no Guairá os jesuítas espanhóis criavam reduções de índios tendo em vista a criação da Província do Paraguai, com especial intensidade nos anos de 1627 e 1628, a ponto de alarmar as autoridades paulistas. O Guairá constituía de uma zona fronteiriça, pelo que, ao expandirem-se na região, os jesuítas ameaçavam ocupar o interior da capitania de São Vicente e consequentemente cercar São Paulo, cidade relativamente isolada das restantes do Brasil e dependente das utilidades do sertão. O interesse dos paulistas em detê-los não decorria por isso apenas de motivações usuais das bandeiras (apresamento de índios inimigos, busca de metais preciosos), mas também de intuitos políticos de soberania que acarretavam uma componente económica de subsistência do burgo.

À frente dessa bandeira, saída de São Paulo em Agosto de 1628 e regressada em 1629, Tavares desferiu um golpe decisivo nas reduções do Guairá e na influência que tinham na região. Nos anos seguintes, sucedendo-se acções repressivas por parte dos lugar-tenentes de Raposo, as reduções do Guairá entraram em decadência e os habitantes das cidades de Vila Rica e Ciudad Real acabaram mesmo por abandonar a região em 1632.

De volta a São Paulo, António Tavares ocupou cargos na magistratura, tornando-se em 1633 juiz ordinário da vila e depois ouvidor da capitania de São Vicente, por nomeação do conde de Monsanto, o que poderá ser tomado como uma sanção oficial à bandeira de 1628-1629. Ainda em 1633, dando corpo ao conflito entre as jurisdições espiritual e temporal sobre a administração dos índios, participou no assalto ao colégio e igreja do aldeamento jesuíta de Maruí, próximo de São Paulo, que resultou na expulsão dos padres. Reagindo, os jesuítas excomungaram-no e o governador-geral destituiu-o da ouvidoria, onde foi reposto pelo ouvidor-geral do Sul, em defesa da supremacia do civil.

Em 1636, partiu como capitão-mor de uma bandeira à província dos Tape (actual Estado do Rio Grande do Sul), região fronteira ao Uruguai onde os jesuítas espanhóis se vinham instalando após o abandono do Guairá. Continuavam por isso a envolver a capitania, se bem que a maior distância, apresentando riscos para a sua soberania e para a própria economia paulista, dado que os bandeirantes praticavam ali acções de comércio com os índios.

A bandeira que António Raposo Tavares liderou, durou cerca de um ano e destruiu a linha avançada das reduções do Tape. Em 1637, outras duas bandeiras paulistas ao Tape deram início à destruição das reduções do Uruguai e, ao atingirem o Prata, puseram fim ao ciclo das bandeiras de apresamento.

Em resposta a esta bandeira de Raposo, os jesuítas enviaram o padre António Ruiz de Montoya a Filipe IV para conseguir a condenação das bandeiras paulistas. Porém, não se efectivou qualquer condenação contra Raposo, tanto que será mesmo incorporado no alistamento de homens do sul para participar na expedição à Baía contra os neerlandeses que tentavam de novo apossar-se da capital em 1639. Depois da batalha naval, juntou-se à expedição terrestre de Luís Barbalho, regressando em seguida a São Paulo, onde se encarregou de organizar as forças do terço de socorro à Baía.

Quando a cidade aclamou D. João IV, a 3 de Abril de 1641, o nome de António Raposo Tavares encontrava-se em segundo lugar no auto de aclamação. Em Abril de 1642, recebeu dos vereadores e moradores de Parnaíba (São Paulo) poderes de representação e foi nessa condição que se deslocou ao Reino – possivelmente por causa da administração dos índios – onde terá permanecido até 1647.

Nesse ano encontrava-se de novo no Brasil, incumbido de levar a cabo uma bandeira de iniciativa metropolitana, para a qual o rei o nomeara mestre-de-campo. A bandeira tinha como objectivos a procura de metais preciosos, a descoberta de novos sertões e rios que unissem o Sul paraguaio ao Norte amazónico e possivelmente o ataque a reduções do Itatim (sudoeste do actual Mato Grosso) e a algumas cidades espanholas.

Constituída por luso-brasileiros e índios tupi (como de resto acontecia com as bandeiras paulistas em geral, devido ao substrato tupi da cidade), saiu de São Paulo dividida em duas tropas. A maior, sob o comando de Raposo, saiu provavelmente em finais de 1647 e a outra, de António Pereira de Azevedo, no início de 1648. De São Paulo seguem até ao rio Paraguai. Entre Maio e Agosto de 1649 a expedição atravessou os cerros do sistema chiquino, explorando em seguida as faldas orientais do Andes. Na Primavera de 1650 regressaram pelo rio Guapaí, tomando o rumo dos rios Mamoré, Madeira e finalmente Amazonas, atingindo Gurupá (na foz) em Fevereiro de 1651. A bandeira falhou nos seus propósitos de encontrar minas de metais preciosos, mas foi feliz no afastamento dos jesuítas do Itatim e na descoberta do rio Madeira como ligação, indo ao encontro do que fora alcançado por Pedro Teixeira ao subir o Amazonas em 1637 e definindo os futuros limites interiores do Brasil.

Regressou a São Paulo. Até à sua morte, referências documentais dão-no como estando em Lisboa em Setembro de 1655.

Bibliografia:
CORTESÃO, Jaime, Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil, 2 vols., Lisboa, Portugália Editora, 1966. MAURO, Frédéric (coord.), O Império Luso-brasileiro (1620-1750), vol. VII da Nova História da Expansão Portuguesa (direcção de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques), Lisboa, Editorial Presença, 1991.

Autor:Pedro Cerdeira


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