Antropónimos seta VELHO, Álvaro

Nascido no Barreiro, soldado, é uma personagem acerca da qual não se sabe muito. Fazia parte da armada de Vasco da Gama destinada à Índia que saiu do Restelo a 8 de Julho de 1497. Durante grande parte da viagem de ida, esteve a bordo da nau São Rafael capitaneada por Paulo da Gama, mas desconhece-se o cargo que nela desempenhava. Esteve também entre os treze homens da comitiva que acompanhou Vasco da Gama a terra, na audiência concedida pelo Samorim de Calecute.

A autoria da Relação anónima dessa viagem é controversa, mostrando-se os autores divididos sobretudo entre Álvaro Velho e João de Sá, escrivão da São Rafael. É até possível que o autor tenha sido um dos outros homens que acompanharam Gama a terra e cujos nomes não são conhecidos. No entanto, há um relativo consenso em atribui-la a Álvaro Velho, algo que foi avançado logo por Diogo Köpke, o primeiro editor do texto, na década de 1830. De qualquer modo, como salienta Sanjay Subrahmanyam, a identificação do autor não contribui de forma significativa para a análise do relato.

A Relação é o único documento contemporâneo que relata de forma detalhada a viagem de 1497-1499. A viagem até ao Cabo da Boa Esperança (dobrado a 22 de Novembro de 1497) ocupa relativamente pouco espaço no manuscrito. São dedicadas linhas à descrição dos contactos entre Portugueses e Africanos das Baías de Santa Helena e de São Brás e o próprio Velho, a ser ele o autor do texto, terá estado em terra.

Avançando pela costa oriental africana, o texto é mais favorável a descrever os habitantes locais e as conversas mantidas com estes levaram Velho a acreditar que os Portugueses se aproximavam enfim do mundo comercial desejado.

Por altura da chegada da armada à ilha de Moçambique o autor encontrava-se a bordo da Bérrio de Nicolau Coelho. Já depois dos incidentes de Moçambique e Melinde, o relato dá conta de desconfiança em relação aos governantes da região. Tanto que em Calecute, o próprio Gama só irá a terra a 28 de Maio de 1498, alguns dias após a chegada, acompanhado de Álvaro Velho e de outros onze homens. O relato descreve então tudo o que se passou enquanto permaneceram em terra: o encontro com o Samorim, a curiosidade suscitada entre os habitantes, os mal-entendidos e as confusões de protocolo, assim como a tensão que aumentava entre Portugueses e mercadores muçulmanos. Velho descreve ainda a aparência das pessoas, a cidade e os edifícios. Eram os primeiros traços de realidades com que os Portugueses teriam de lidar nos anos seguintes.

Os termos de comparação utilizados pelo autor remetem para as realidades portuguesa e cristã: templos tomados como igrejas, dignitários como bispos. Já os bois de São Brás lhe tinham lembrado os do Alentejo e a cidade de Melinde comparada a Alcochete. Algo relevante e que percorre toda a parte do texto dedicado a Calecute é o facto de Velho acreditar que os habitantes da cidade professavam o Cristianismo, ainda que numa versão algo adulterada, considerando várias acções e aspectos dos locais como sendo de cristãos.

O manuscrito da Relação tem ainda outros conteúdos. O primeiro é uma lista de reinos a sul de Calecute e respectivas produções, algo que o autor terá realizado a partir das informações sem grande exactidão obtidas junto de Gaspar da Gama, judeu aprisionado pelos Portugueses na Ilha de Anjediva. A terceira parte do manuscrito consiste numa lista de suposto vocabulário português-malaiala.

Depois da saída da armada de Gama do porto de Calecute – em 29 de Agosto de 1498 – são descritas as peripécias do regresso a Lisboa, que acontece já em Setembro de 1499. No entanto, a Relação acaba por razões desconhecidas no dia 28 de Abril de 1499 quando a armada atingia o Rio Grande na Costa da Guiné.

Não se sabe o que terá acontecido ao autor, mas o facto de a Relação terminar por alturas da Costa da Guiné serviu a alguns autores para sustentar que Álvaro Velho teria ficado pela Guiné por oito anos e sendo por isso o mesmo Álvaro Velho que forneceu mais tarde informações a Valentim Fernandes para a sua “Descrição da Guiné” de 1507.

Bibliografia:
AMES, Glenn J., Em nome de Deus: The Journal of the First Voyage of Vasco da Gama to Índia, 1497-1499, Leiden-Boston, Brill, 2009. SUBRAHMANYAM, Sanjay, A Carreira e a Lenda de Vasco da Gama, Lisboa, C.N.C.D.P., 1998.

Autor: Pedro Cerdeira


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