Antropónimos seta Vasconcelos, D. Filipa de

Autora de uma das poucas memórias de cativos de que há notícia em Portugal, simultaneamente, uma interessante descrição de Marrocos, ao tempo de Mawlay Isma‛il e de Mawlay Ahmad al-Dhahabi, nos primórdios do século XVIII. Apenas parcialmente publicada, em meados do século XIX, com o título Marrocos - Viagem e captiveiro de uma dama portugueza, n'este Imperio, em tempo del-Rei D. João V,, prevê-se que, dentro em breve, esta obra conheça uma edição integral.

D. Filipa de Vasconcelos, sobre a qual muito pouco se sabe para além daquilo que a própria regista nas suas memórias, terá nascido cerca de 1686, em Alcácer do Sal, e ainda vivia, em Faro, em 1744. Filha de Manuel Pais Cubelos de Vasconcelos, natural de Alvito, e de Leonor de Medina y Guzmán, de Jerez de la Frontera, tendo vivido uma infância despreocupada nas margens do Sado, entre a casa de seus pais e o Convento de Nossa Senhora de Aracoeli, viu as suas aventuras terem início, precocemente, com a morte de seu pai. Após este funesto episódio, partilhando a sorte de uma família sem grandes recursos financeiros, fixou-se em Lisboa, onde se encontrava quando faleceu D. Pedro II, em 1706. Então, vê-se constrangida, pela situação familiar e pela pressão de parentes e amigos, a contrair matrimónio com um oficial espanhol que, integrando as forças de Carlos, Arquiduque de Áustria, pretendente ao trono de Espanha, acompanhará pouco depois até Alicante. Alguns meses depois, perante o avanço das forças de Filipe de Anjou, o futuro Filipe V, deixa Alicante e refugia-se em Ibiza, onde toma conhecimento da derrota sofrida pelos apoiantes do pretendente Habsburgo em Almança e, por outro lado, da morte do seu marido. Ao tempo, viúva, aceitará o pedido de casamento de João Baptista Julião, natural de Valência, corsário, o qual acompanhará nas suas viagens pelo Mediterrâneo Ocidental até que, tendo este obtido licença do Arquiduque de Áustria, voltou para Portugal, fixando-se em Alcácer do Sal. Alguns anos mais tarde, em 1718, agora na companhia do marido e de dois filhos, Ana de Vasconcelos e Manuel Julião de Vasconcelos, abandonando de novo a terra que a viu nascer, embarcou em Lisboa com destino a Espanha. Contudo, novamente vítima da má fortuna, naufragou na costa marroquina, algures entre o rio Lucos e o rio Cebu. Aí será feita cativa e, posteriormente, levada para Mequinez, onde irá permanecer durante largos anos. Em 1729, foi resgatada por religiosos da Ordem da Santíssima Trindade para a Redenção dos Cativos. De regresso ao Reino, passou por Lisboa, Olhão, Cádis, até que, não sabemos por quanto tempo, se fixou em Faro, onde escreveu as suas memórias, a pedido de D. Inácio de Santa Teresa, bispo do Algarve, em 1744.

Bibliografia:
VASCONCELOS, D. Filipa de, "Marrocos - Viagem e captiveiro de uma dama portugueza, n'este Imperio, em tempo del-Rei D. João V", in Archivo Pittoresco: Semanario Illustrado, vol. III, 1860, pp. 11-13, 19-20, 46-47, 58-59 e 66-68.

Autor: António Manuel Lázaro


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