Antropónimos seta DIAS, Bartolomeu

Capitão-mor da armada que dobrou o Cabo das Tormentas, em 1488, abrindo a passagem entre os oceanos Atlântico e Índico através da qual Europa e Ásia passaram a estar definitivamente ligadas por via marítima. Ligação efectivamente concretizada por Vasco da Gama, em 1498, e consubstanciada na chamada rota do Cabo.

Na sequência das viagens exploratórias ao Atlântico sul dinamizadas pela Coroa portuguesa ao longo da década de 1480, logo após a segunda expedição de Diogo Cão que em 1486 atingiu a Serra Parda, D. João II (r. 1481-1495) entregou a Bartolomeu Dias a missão de continuar o reconhecimento da costa africana e de transpor o cabo das Tormentas. Atingir a Índia por mar, conseguindo simultaneamente acesso directo às especiarias indianas e ao mítico reino cristão do Preste João, revelou ser um dos principais fitos da política ultramarina de D. João II. À época da partida da expedição de Bartolomeu Dias era já legítimo acreditar na proximidade da descoberta da passagem marítima entre os oceanos Atlântico e Índico circum-navegando África. No mesmo ano, para além de Bartolomeu Dias, D. João II mandou, por via terrestre, Afonso de Paiva, ao reino do Preste, e Pêro da Covilhã, à Índia, com o objectivo de se inteirarem do sistema de navegação e comércio do Índico.

Do que hoje sabemos, Bartolomeu Dias partiu de Lisboa, entre 1 e 14 de Agosto de 1487, ao comando de uma pequena armada de duas caravelas e uma naveta para transportar mantimentos. A caravela principal, cujo nome se ignora (é apontado o nome São Cristovão), era comandada pelo próprio Dias secundado pelo piloto Pêro de Alenquer, homem de mar experimentado que pilotará a nau São Gabriel na expedição de Vasco da Gama de 1497-1499. A segunda caravela, São Pantaleão, era capitaneada por João Infante e pilotada por Álvaro Martins. Ao comando da naveta auxiliar, de nome também desconhecido, ia Pedro (ou Diogo) Dias, irmão de Bartolomeu Dias, e, como piloto, João de Santiago, companheiro de Diogo Cão em viagens anteriores. O carácter da empresa era claramente exploratório, como fazem prova as embarcações escolhidas, caravelas em vez de naus, estas últimas usadas em situações de afirmação de soberania como ocorrerá mais tarde com a expedição de Vasco da Gama.

Uma vez na costa ocidental africana, a armada navegou até São Jorge da Mina onde provavelmente terá parado para se abastecer. Daqui terá seguido a rota reconhecida por Diogo Cão, rumando até à foz do rio Zaire e continuando para sul: terra de Santa Bárbara (onde se supõe que tenha passado a 4 de Dezembro), golfos de Santa Maria da Conceição (8 de Dezembro), São Tomé (21 de Dezembro), Santa Vitória (23 de Dezembro), angra das Voltas, golfo de Santo Estêvão (26 de Dezembro) e terra de São Silvestre (31 de Dezembro). A 6 de Janeiro de 1488 a armada avistou a Serra dos Reis, ponto a partir do qual se distanciou da costa e rumou a sudoeste, navegando o interior do Atlântico ao longo de treze dias até inflectir para norte e se acercar da baía a que chamaram dos Vaqueiros, no dia 3 de Fevereiro de 1488.

Nestes treze dias a expedição ter-se-á afastado da costa na direcção sudoeste, encontrando ventos variáveis que lhe permitiram rumar a sul para, em seguida, conduzida por ventos entre norte e sul, rumar a este na direcção da costa africana. Na volta do mar que aqui experimentou, a armada de Bartolomeu Dias havia transposto o cabo das Tormentas sem que o soubesse. A experiência terá servido de ensinamento às rotas posteriores, complementadas com os conhecimentos adquiridos nas expedições exploratórias que alegadamente foram realizadas na década seguinte, entre 1488 e 1497. A rota costeira foi reconhecida como pouco praticável, sobretudo para embarcações menos manobráveis como eram as naus, e apontou-se como solução uma volta em arco, pelo largo da costa africana, com início num porto a norte como São Jorge da Mina ou São Tomé.

A armada de Bartolomeu Dias e o anúncio da passagem do cabo das Tormentas (posteriormente rebaptizado de Cabo da Boa Esperança) foram finalmente recebidos em Lisboa em Dezembro de 1488. Apesar do resultado positivo da expedição, as fontes portuguesas coevas (quer as escritas, quer cartográficas), porém, pouco a recordam. Várias explicações são aventadas para este esquecimento. Por um lado, o facto de a viagem ter sido encarada como instrumental na prossecução do objectivo principal, a chegada à Índia. Por outro, o maior destaque dado às viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.

Só a historiografia posterior, particularmente João de Barros (a principal fonte escrita para o estudo da expedição), já no século XVI, dará destaque à viagem de Bartolomeu Dias, valorada então como um dos acontecimentos centrais da expansão portuguesa do final do século XV, decisivo para a determinação da rota marítima para a Índia. A falta de informação nas fontes portuguesas é em parte suprida pela cartografia estrangeira, em especial Henricus Martellus, técnico cartográfico de origem alemã. Os mapas-mundo de Martellus (c. 1489) registam, tanto o percurso de Dias como o de Diogo Cão, esclarecendo sobre alguns pontos das viagens de ambos sobre os quais não havia confirmação escrita.

Ao contrário das expedições de Gama e Cabral que marcaram o início de uma nova fase, a expedição de Bartolomeu Dias apresenta-se como o fecho da primeira fase da expansão marítima portuguesa, iniciada três quartos de século antes sob a égide do infante D. Henrique. Na década de 1480, já com D. João II no trono português, o principal objectivo a alcançar era o de dobrar o cabo das Tormentas para, em seguida, demandar a Índia e aceder a esse "novo mundo" que preenchia o imaginário português e europeu. Decerto, a par deste, concorriam também propósitos de evangelização, bem como os tradicionais propósitos de cariz político-militar de rodear o Islão contando com a solidariedade religiosa do Preste João. Após um longo processo de exploração do Atlântico sul, os objectivos portugueses concretizaram-se com a transposição do cabo das Tormentas. Não por acaso, ele é hoje considerado um acontecimento de destacada importância no conjunto da expansão marítima portuguesa e europeia.

O sucesso da expedição granjeou a Bartolomeu Dias a promoção a almoxarife do armazém da Guiné, cargo que irá ocupar entre 1494 e meados de 1497. Nos anos seguintes, Dias acompanhará ainda a armada de Vasco da Gama até ao largo da Serra Leoa e integrará a armada de Pedro Álvares Cabral incumbido da missão de explorar a região de Sofala. Acabaria, porém, por morrer quando a embarcação que comandava foi atingida por uma tempestade junto às ilhas de Tristão da Cunha, zona do Atlântico sul que anos antes ajudara a desvendar.

Bibliografia:
ALBUQUERQUE, Luís de, Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses – séculos XV e XVI, Vol.I, Lisboa, Círculo de Leitores, 1987. Axelson, Eric, Portuguese in South-East Africa 1488-1600, Johannesburg, University of Witwatersrand, 1973. FONSECA, Luís Adão da, O Essencial Sobre Bartolomeu Dias, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1987. MOTA, A. Teixeira da, Bartolomeu Dias: Descobridor do Cabo da Boa Esperança, Lisboa, Edição do N.R.P, 1955. THOMAZ, Luís Filipe, “O Projecto Imperial Joanino (tentativa de interpretação global da política ultramarina de D. João II)” in Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a sua época. D. João II e a política quatrocentista, volume I, Porto, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1989.

Autor: Maria Bastião


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