Antropónimos seta NORONHA, D. Afonso de

Vice-rei da Índia (1550-1554).

Quarto filho do 2º marquês de Vila Real (1499-1524), D. Fernando de Meneses, e de D. Maria Freire, desconhecem-se as suas datas de nascimento e morte. A sucessão da casa em que nasceu fez-se pelo ramo do seu irmão D. Pedro de Meneses, 3º marquês de Vila Real (1524-1543). Casou-se com D. Maria de Eça, senhora de Santos-o-Novo, união da qual viria a nascer, entre outros filhos, D. Fernando de Noronha. D. Afonso de Noronha foi aposentador-mor de D. João III e membro do Conselho Real, senhor e comendador de Olalhas, de S. Miguel e de S. João da Castanheira. Foi ainda capitão de Ceuta (1535-1549), sucedendo naquele posto a seu irmão, D. Nuno Álvares Pereira. Após importante acção na referida capitania, designadamente na construção, interrompida, da fortaleza do Seinal, e devido ao abandono das praças norte-africanas de Alcácer Ceguer e Arzila em 1550, recebeu, a 18 de Fevereiro de 1550, carta de nomeação para vice-rei da Índia. Embarcou em Maio de 1550, em armada de seis naus, acompanhado do filho D. Fernando e do sobrinho D. Antão de Noronha, filho do seu irmão, D. João de Noronha (c. 1485-1524), também capitão de Ceuta. Nesta armada seguia igualmente D. Álvaro de Noronha que viria a ser capitão de Ormuz, desempenhando importante papel militar e político de aconselhamento a D. Afonso na sua governação, bem como D. Diogo de Noronha, filho daquele e cuja acção militar seria relevante. Ao partir de Lisboa com o título de vice-rei, que passaria desde então a ser uma constante para os nomeados no Reino, levava diversas ordens de D. João III. Entre estas, destacava-se a ordem de fazer regressar a Portugal os cristãos-novos passados à Índia e um pedido de exame a cristãos velhos, suspeitos de Judaísmo.

A 6 de Novembro de 1550 iniciou o seu governo com as primeiras nomeações e despachos assinados em Cochim pois só chegaria a Goa a 20 de Janeiro de 1551 por ter estado ocupado com uma visita a praças portuguesas da costa ocidental indiana, em especial Cananor. Uma vez entrado em Goa foi alvo de uma grande recepção devida ao seu prestígio militar e por ser avô do então 4º marquês de Vila Real, D. Miguel de Meneses (1543-1564), um membro da mais alta nobreza do reino. Uma tal recepção foi sintomática das expectativas colocadas sobre o seu exercício de poder. O ano de 1551 iniciou-se com diversas ameaças. Logo em Fevereiro, o ex-governador Jorge Cabral, com a ajuda de Manuel de Sousa Sepúlveda, outro nome que viria a destacar-se neste vice-reinado, repeliu um ataque à fortaleza de Cochim, lançado por naires, com apoio do Samorim de Calicute. Entretanto no Golfo Pérsico, os Turcos conquistavam o forte de Catifa, ponto na costa árabe de importância estratégica para a defesa de Ormuz, vindo esta última praça a ser efectivamente cercada pelas hostes da Sublime Porta. D. Afonso nomeou então o seu sobrinho, D. Antão de Noronha, para comandar a armada de socorro, mas quando este chegou a Ormuz já o cerco havia sido quebrado pelo capitão da fortaleza. Em retaliação, D. Antão investiu contra Baçorá e a foz do Eufrates, facto que viria a motivar retaliação turca. No outro extremo da Ásia, em Junho de 1551, Malaca era sujeita a três meses de cerco pelos sultões de Bintão e Java. Este foi levantado pela acção de D. Pedro da Silva e de D. Garcia de Meneses, que havia sido nomeado para a capitania de Ternate. Visto que o segundo ficou por Malaca, seguiu Bernardim de Sousa para aquela capitania, conquistando Geilolo ao rei de Ternate através de um cerco que acabou por pacificar, pelo terror, as Molucas. Por essa altura, o rajá de Chembé, nas imediações de Cochim, com apoio do Samorim de Calicute, procurava impedir os carregamentos de pimenta dos Portugueses, razão pela qual o vice-rei, com a ajuda de D. Antão de Noronha, dirigiu uma esquadra para aquela zona, derrotando o rajá e só depois nomeando o sobrinho para o supracitado socorro à praça de Ormuz. No Ceilão também os problemas se avolumavam devido a rivalidades locais. O rei de Sitawaka, conhecido nas fontes portuguesas por Madune, aproveitando a morte do rei de Kotte, decidiu romper os anteriores tratados com o Estado da Índia. Foram nomeados vários homens pelo vice-rei para punir o Madune, entre eles D. António de Noronha, filho do vice-rei D. Garcia de Noronha e mais tarde capitão de Cochim, D. Fernando de Noronha e D. Antão de Noronha, que acompanharam o vice-rei na sua jornada punitiva ao Ceilão. Esta arrastou-se pelos finais do ano de 1551, desde o encontro em Colombo até à conquista de Sitawaka. De salientar que durante esta guerra em que se procurou o tesouro não encontrado de Colombo, o primo do rei de Kotte se converteu ao Cristianismo, vindo a ser recebido por D. João III e sendo-lhe restituídos os seus anteriores poderes.

Apesar da maioria dos desafios terem sido resolvidos, alguns viriam a persistir. Assim, o ano de 1552 principiou com uma nova ameaça turca no Golfo Pérsico. O Pirbec das fontes portuguesas (mais conhecido como Epir-Bey/Piri Reis) foi mandatado por Istambul para cercar Ormuz. No entanto, antes de se dirigir a Ormuz, Pirbec assentou cerco a Mascate, fazendo render a praça portuguesa que apenas contava com 60 homens para se defender. Só depois montou cerco a Ormuz, dando tempo a D. Álvaro de Noronha, então capitão da fortaleza, para preparar a sua defesa. Informado da nova ameaça, D. Afonso de Noronha prestou-se a comandar a armada de socorro à praça sitiada. Para o efeito, D. Afonso pediu um empréstimo em Goa, acabando aquela ajuda por não ser necessária uma vez que Pirbec levantou o cerco, tendo apenas saqueado a cidade. D. Antão de Noronha ficou com o comando da armada que, uma vez chegada ao destino, deveria ficar às ordens a D. Diogo de Noronha, filho do referido capitão de Ormuz. Tal sucedera porque em Diu o Conselho não deixara o vice-rei liderar a armada, argumentando com a importância da sua presença em solo indiano. Entretanto, logo nos inícios do ano, um desertor turco, com a autorização do Samorim de Calicute, ocupou a feitoria de Ponicale, motivando uma reacção por parte de Gil Carvalho, a quem foram entregues navios para uma desforra. Esta foi obtida quando, em Maio de 1552, Carvalho apoderou-se dos navios que transportavam o saque da cidade ocupada. Por esta fase, emergiu ainda o problema da sucessão na capitania de Malaca, pois D. Pedro da Silva ainda tinha um ano de serviço para cumprir, mas D. Álvaro de Ataíde, irmão de D. Pedro, considerou ter direito à capitania para a qual tinha sido nomeado. O conflito foi resolvido por D. Afonso de Noronha a favor do segundo, tendo D. Pedro sido nomeado para missão ao Estreito de Meca. No Ceilão, o pai do rei de Kotte, Tribuly Pandar das fontes portuguesas, apesar da sua conversão ao Cristianismo, estava preso, com autorização do vice-rei, por dever 2000 ducados a D. Duarte de Eça, capitão-mor do Ceilão desde aquele ano. Sabendo desta conversão, D. Afonso de Noronha decidiu demitir D. Duarte de Eça pela sua insistência e maus-tratos a Tribuly Pandar. Para este ano foi apontada a primeira referência a um conselho destinado a apoiar o vice-rei nos negócios de Estado.

No ano de 1553 os conflitos com os Turcos no Golfo Pérsico iriam continuar. Em Agosto, uma nova armada turca, apostada em assaltar Ormuz, defrontou-se com os navios de D. Diogo de Noronha, saindo os Portugueses vitoriosos da refrega e destacando-se a acção de Gonçalo Pereira Marramaque durante o conflito. D. Afonso de Noronha foi também obrigado, neste ano, a entregar, por ordem régia, ao rei do Ceilão os bens que lhe haviam sido apreendidos. O facto mais preocupante, durante este ano, para o vice-rei foi o reacender do conflito entre Cochim e o rajá de Chembé, sempre apoiado pelo Samorim de Calicute. Francisco Barreto, que no ano anterior havia sido nomeado para carregar as naus para o Reino, tinha-se visto impedido de concretizar tal intento devido à acção deste rajá pelo que, em 1553, D. Afonso de Noronha decidiu marchar contra aquele, derrotando-o em batalha campal. Nesta batalha estiveram presentes figuras importantes do vice-reinado, como D. Fernando de Noronha, D. António de Noronha, D. Álvaro de Noronha, António Moniz Barretoe Francisco Barreto. O prestígio de D. Afonso saiu bastante reforçado desta batalha. Foi também neste ano que um grupo de Portugueses, após um temporal, aportou a sul de Cantão, acabando mais tarde por vir a dar origem ao estabelecimento de Macau.

No último ano do seu governo, D. Afonso de Noronha assinou a paz com o rajá de Chimbé, embora esta só viesse a ser definitivamente confirmada já no ano seguinte. Esta foi negociada com a condição dos Portugueses abandonarem ilhas que ocupavam a este soberano indiano e de este permitir a passagem dos carregamentos de pimenta pelo seu território rumo às naus portuguesas. D. Fernando de Noronha, nomeado para capitão de uma armada que devia dirigir-se ao Estreito de Meca, invernou em Ormuz para esperar o previsível ataque turco com origem em Baçorá, em Agosto. Uma vez ali estante, D. Fernando pilhou algumas povoações da costa árabe, acabando por passar em Mascate e regressar a Ormuz. Um novo capitão turco foi enviado para a região, o Alecheluby das fontes portuguesas (mais conhecido por Aley-Sebebuly), que procurando atacar os Portugueses em Mascate de surpresa, foi derrotado, perdendo seis galés. A Batalha de Mascate de 1554 marcava o empate entre Portugueses e Turcos, incapazes de se desalojarem mutuamente. No entanto, o acontecimento que mais marcou o ano de 1554 foi a morte do sultão do Guzerate a que se seguiram lutas internas pelo poder dentro daquele sultanato. No meio dessas guerras, uma das facções decidiu-se a atacar os interesses portugueses em Diu, dada a sua posição estratégica. D. Diogo de Almeida, então capitão da fortaleza, foi substituído por D. Diogo de Noronha que retomou a cidade ao Abiscão das fontes portuguesas. A 23 de Setembro de 1554 terminava oficialmente o governo de D. Afonso de Noronha, não sem que se verificassem alguns desacatos que o novo vice-rei D. Pedro Mascarenhas, procurou abafar. Regressado ao Reino em Janeiro de 1555, D. Afonso de Noronha ainda foi nomeado para mordomo-mor da infanta D. Maria, filha de D. Manuel I e da rainha D. Leonor, tendo morrido com mais de 75 anos, em 1571. Encontra-se sepultado no Mosteiro de São Domingos de Santarém. Governou durante 3 anos e cerca de 10 meses. A sua acção governativa tem sido interpretada de distintas formas. Se por um lado, se realça a sua capacidade de resposta aos ataques simultâneos que várias praças sofrem neste período (Ormuz, Diu, Malaca e Ternate, entre outras, e ainda a questão sucessória no Ceilão), não é menos verdade que Manuel Faria de Sousa considera que o seu governo acabou por revelar-se inferior às expectativas nele colocadas: “… do que resultou que o fruto do seu governo foi bem desigual às esperanças com que o enviaram a ele …” (SOUSA, Manuel de Faria e, Ásia Portuguesa, tradução de Manuel Burquets de Aguiar, vol. III, Parte 2, cap. XIII, Porto, Livraria Civilização, 1945). Talvez tal facto explique a razão pela qual este mesmo autor defende a relativa pobreza em que viveu D. Afonso de Noronha desde que regressou ao Reino até falecer.

Bibliografia:
COUTO, Diogo do, Da Ásia, VII, ii-v, Lisboa, Livraria San Carlos, 1974; EÇA, Duarte de, Relação dos Governadores da Índia (1571), edição de R. O. W. Goertz (Codex Goa 38), Calgary, University Printing Séries, 1979, pp. 9-11. SOUSA, Manuel de Faria e, Ásia Portuguesa, tradução de Manuel Burquets, vol. III, Parte 2, caps. XII-XIII, Livraria Civilização, Porto, 1945. ZÚQUETE, Afonso, Tratado de Todos os Vice-Reis e Governadores da Índia, Lisboa, Editorial Enciclopédia, 1962.

Autor: Nuno Vila-Santa


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