Antropónimos seta GARRO, D. Fr. Lourenço (c.1565-1646)

9.º bispo de Cabo Verde.

Nasceu em Tomar c. de 1565; ingressou no convento de Tomar, onde tomou ordens sacras e ingressou na Ordem de Cristo; cursou teologia na Universidade de Coimbra, onde foi lente de prima; foi provedor do hospital de Nossa Senhora da Lux; ascendeu na Ordem de Cristo onde foi pregador-geral, visitador-geral e finalmente prior-geral. É considerado especialista em humanidades, lógica e teologia, tendo leccionado várias destas disciplinas, além de pregador conceituado. Foi apresentado como bispo de Cabo Verde em finais de 1624 e confirmado em 18 de Agosto de 1625, sendo sagrado no ano seguinte. Foi residir à diocese ainda em 1626. O episcopado de D. Fr. Lourenço Garro à frente da diocese de Cabo Verde foi bastante diferenciado do dos seus antecessores em duração, zelo e conduta. O seu ministério em Cabo Verde alargou-se por c. de 20 anos; permaneceu mais tempo à frente da diocese do que os quatro prelados anteriores no seu conjunto, cuja residência efectiva apenas somou cerca de 6 anos. Foi bastante firme junto dos organismos centrais, pelo que ainda em Lisboa lhe foram satisfeitas as suas reivindicações, nomeadamente no que toca a ajudas de custo, ornamentos e ordenados vencidos. Além disso foi agraciado com o alvará das faculdades, bem como nomeado superintendente das obras da sé catedral que a Coroa teimava em ver edificada. O bispo Garro mostrou-se consternado com as informações que lhe chegavam de Cabo Verde, manifestando que no Reino não se imaginava o que era Cabo Verde, chegando mesmo ao extremo de pensar que seria o último prelado da diocese, pois já circulava a ideia que o bispado seria desmembrado e «voltaria aos tempos antigos» de ser administrado a partir da diocese da Madeira. Em 1626 as dividas ao clero da diocese ascendiam a mais de 19 000 cruzados. Só depois de muita insistência do bispo e envio de procuradores a Lisboa é que se alcançou que as ordinárias fossem pagas parcialmente pelos contratadores negreiros. Outro problema imediato a que o bispo procurou dar resolução foi o da missão dos jesuítas em Cabo Verde. Tanto os governadores Francisco Vasconcelos da Cunha (1624-1627) e João Pereira Corte Real (1627-1630), como o bispo Garro traziam ordens régias expressas para se ultimar em definitivo esta questão. A missão nunca havia sido oficializada e nenhum estabelecimento permanente fora fundado; na década de 1630 a missão estagnara e os inacianos estavam agora reduzidos a 3 ou 4 missionários pouco habilitados e estes lançam todo o tipo de «anátemas» sobre a terra, como forma de pressionar a província a abandonar a missão. Em 1642, os últimos jesuítas abandonam Cabo Verde e a missionação conheceria um interregno até à chegada dos franciscanos da província da Piedade em 1657. Em 1644 D. Fr. Lourenço Garro escreve ao geral da companhia e posteriormente a D. João IV acusando a província e os missionários jesuítas de simplesmente desampararem Cabo Verde de forma ilegítima, deixando de assegurar os cuidados espirituais a que se haviam comprometido. Mas não só relativamente aos jesuítas o bispo D. Fr. Lourenço Garro manifesta a sua postura vigorosa. Uma vez que o «cabido e o clero pereciam» e ameaçavam abandonar Santiago rumo às outras ilhas em busca de sustento, escreve a Filipe IV queixando-se amargamente das «vexações» que lhes impunha a Mesa da Consciência e Ordens, ao deixar-se manipular pelos pedidos de alguns clérigos ausentes e menos escrupulosos que aí conseguiam obter provisões de pagamento ou mesmo provisões de visitação aos Rios de Guiné à revelia do ordinário. Já no reinado de D. João IV, depois da Restauração o seu tom é de desencanto e desilusão. Confessa-se um homem velho e cansado de 84 anos de idade e, afirma que nunca praticou o trato negreiro por lhe «parecer crueldade vender as suas próprias ovelhas», o que traduz uma postura ética e moral muito pouco usual numa sociedade escravocrata em que todos, mesmo bispos, vendiam ou compravam escravos. Em tom de desabafo, afirma que só tinha aceite o bispado devido à ameaça de censuras do superior da sua ordem. Em Setembro de 1645 falecia o governador João Serrão da Cunha (1640-1645) sem que existissem vias de sucessão para o governo. Saiu eleito o bispo. Contudo, o governador eleito não foi aceite e logo emergiu forte grande contestação que degenerou em conflito armado. É ainda na sua qualidade de governador interino que o bispo vem a falecer no dia de Todos-os-Santos de 1646. O memorialismo registou que este bispo foi bastante actuante ao nível da disciplina e organização interna da diocese pois teria elaborado em 1627 um dos seus primeiros regulamentos normativos, neste caso, os estatutos do cabido e «outras ordens para o regime clerical». Não persistiu qualquer cópia destas normas que, segundo o historiógrafo Ferreira da Silva foram reformados em 1797 pelo bispo D. Fr. Cristóvão de S. Boaventura.

Bibliografia:
Anónimo (1784), Notícia Corográfica e Cronológica do Bispado de Cabo Verde, … edição e notas de António Carreira, Lisboa, Instituto Caboverdeano do Livro, 1985. ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, nova ed.preparada e dirigida por Damião Peres, vol. II, Porto-Lisboa, Livraria Civilização, 1968, pp. 686. PAIVA, José Pedro, Os Bispos de Portugal e do Império, 1495-1777, Coimbra, Imprensa da Universidade, 2006. REMA, Henrique Pinto, “Diocese de Cabo Verde”, História Religiosa de Portugal, dir. de Carlos Azevedo, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, vol. II, A-C, pp. 280-284. SANTOS, Maria Emília Madeira; SOARES, Maria João, “Igreja, Missionação e Sociedade”, História Geral de Cabo Verde, vol. II, coord. de Maria Emília Madeira Santos, Lisboa-Praia, IICT-INCCV, 1995, pp. 408-412. SOUSA, António Caetano de, Catálogo dos bispos das igrejas de Cabo Verde, S. Tomé e Angola in Colleçam dos documentos, estatutos e memórias da Academia real da História Portugueza que neste anno de 1722 se compuzerão e se imprimirão por ordem dos seus censores, Lisboa, Pascoal da Sylva, 1722.

Autor: Maria João Soares


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