Antropónimos seta LEITÃO, D. Bartolomeu (? – 1587)

4.º bispo de Cabo Verde.

Natural da vila de Entradas no bispado de Évora e filho legítimo de Jorge Leitão e Joana Coelha; era bacharel em teologia, frade carmelita e foi apresentado ao papa em 1571; nesta data era apenas presbítero da Sé de Évora, portanto clérigo menorita, sendo confirmado como bispo em 6 de Fevereiro de 1572 antes de ter ordens sacras, pelo que a cédula consistorial o dispensava dos prazos canónicos entre ordens, obrigando-o a fazer decreto de profissão de fé. Em um só mês, em Setembro de 1571, recebeu das mãos do bispo coadjutor de Évora, D. Amador Arrais e do próprio arcebispo de Évora D. João de Melo, as ordens de epístola, evangelho e finalmente as ordens sacras. A data da chegada à diocese por parte de D. Bartolomeu Leitão é desconhecida; as primeiras cartas de apresentação de clérigos para as paróquias e dignidades do cabido datam de 1577, pelo que deve ter chegado nos anos imediatamente antecedentes ou posteriores. A sua acção eclesial encontra-se pouco documentada, o que se deve à destruição dos cartórios eclesiásticos aquando dos saques às igrejas da Ribeira Grande nos ataques de Emanuel Sarradas em 1583 e Francis Drake em 1585. É lhe atribuída, de forma algo imprecisa, a construção das «casas» de morada do bispo, o que provavelmente se refere à conclusão do paço episcopal ainda iniciado por D. Francisco da Cruz. Contudo, a sua conduta pessoal parece ter sido bastante desregrada e o seu munús irregular, dado que logo em 1581 o papa Gregório III escreve ao arcebispo de Lisboa D. Jorge de Lencastre, ordenando-lhe que instaurasse processo a D. Bartolomeu Leitão acusado por gente de Cabo Verde de não administrar a justiça eclesiástica e ser complacente com os excessos dos fiéis, de se apropriar da renda do seminário e dos dinheiros das fábricas das igrejas, além de conferir ordens sacras a «gente indigna e com vida dissoluta». Mais lhe é imputado o convívio em sua casa com gente desonesta, descendentes de judeus e a mancebia com mulheres casadas e prostitutas. Abriu-se devassa e provaram-se algumas acusações mas sem consequências para o bispo de Cabo Verde que permaneceu no seu ofício. Outras informações sobre D. Fr. Bartolomeu Leitão provêem dos espanhóis Pedro Sarmiento de Gamboa, governador e capitão-geral do Estreito de Magalhães e de Diego Flores de Valdés, capitão-general de uma armada espanhola que estanciou em Santiago entre 9/12 de Janeiro e 2 de Fevereiro de 1582. Foi durante esta estada que foi oficializado localmente o reconhecimento de Filipe II como rei de Portugal pelas principais autoridades nomeadamente o capitão-corregedor Gaspar de Andrade (c. de 1566-1570) e o sargento-mor Francisco de Andrade que presidiram a este acto junto da câmara de Santiago A edilidade logo se manifestou fiel vassala do novo monarca e a única voz renitente em todo este processo precisamente a do bispo. Voltamos a ter notícia do bispo em Janeiro de 1583, aquando do desembarque e posterior saque chefiado por Emanuel Serradas nas ilhas de Santiago e Fogo, à frente de uma expedição de partidários de D. António, prior do Crato, tendo o bispo tido participação directa nos acontecimentos. O bispo foi o único dignitário que permaneceu na Ribeira Grande durante o saque e teria tentado negociar com os sitiantes o resgate de objectos preciosos da Igreja a troco de ir buscar à serra gente para apoiar a causa do pretendente ao trono. Acabou por fugir da cidade, não tendo participado nas operações militares organizadas pelo corregedor e moradores, situação que o deixou malquisto no meio local. O bispo viria a falecer em 9 de Fevereiro de 1587. Em documentação posterior acerca dos espólios dos bispos ultramarinos é referido que D. Fr. Bartolomeu Leitão teria deixado «muita fazenda». Não se afigura muito credível que um clérigo menorita de Évora detivesse amplos cabedais pessoais, pelo que aquela «fazenda» mencionada só poderia provir de rendimentos que o bispo teria angariado durante os cerca de onze anos em que esteve à frente da diocese de Cabo Verde, provenientes do exercício da actividade comercial ilícita e provavelmente da mais lucrativa de todas elas, o tráfico de escravos.

Bibliografia:
Anónimo (1784), Notícia Corográfica e Cronológica do Bispado de Cabo Verde, … edição e notas de António Carreira, Lisboa, Instituto Caboverdeano do Livro, 1985. ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, nova ed.preparada e dirigida por Damião Peres, vol. II, Porto-Lisboa, Livraria Civilização, 1968, pp. 685. PAIVA, José Pedro, Os Bispos de Portugal e do Império, 1495-1777, Coimbra, Imprensa da Universidade, 2006. REMA, Henrique Pinto, “Diocese de Cabo Verde”, História Religiosa de Portugal, dir. de Carlos Azevedo, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, vol. II, A-C, pp. 280-284. SANTOS, Maria Emília Madeira; SOARES, Maria João, “Igreja, Missionação e Sociedade”, História Geral de Cabo Verde, vol. II, coord. de Maria Emília Madeira Santos, Lisboa-Praia, IICT-INCCV, 1995, pp. 390-392. SOUSA, António Caetano de, Catálogo dos bispos das igrejas de Cabo Verde, S. Tomé e Angola in Colleçam dos documentos, estatutos e memórias da Academia real da História Portugueza que neste anno de 1722 se compuzerão e se imprimirão por ordem dos seus censores, Lisboa, Pascoal da Sylva, 1722.

Autor: Maria João Soares


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