Antropónimos seta REIS, D. Fr. Fabião dos (c.1600-1674)

10.º bispo de Cabo Verde.

Nasceu c. 1600 no Campo Grande. Recebeu ordens sacras aos 25 anos na ordem dos carmelitas calçados e fez nesta ordem toda a sua carreira monástica, oficiando em vários mosteiros. Foi perfeito da província da Ordem; era formado em Teologia pela Universidade de Coimbra; foi leitor de filosofia e teologia especulativa na ilha do Faial e leitor de teologia moral durante dois anos no convento do Carmo em Lisboa; foi comissário provincial do Brasil, comissário insular e reitor de um colégio de recolectas de Santa Ana em Coimbra. Foi igualmente qualificador do Santo Ofício. O seu processo de habilitação canónica data de Janeiro 1671, pelo que deve ter sido apresentado à Cúria ainda neste ano. Foi confirmado a 16 de Maio de 1672 e sagrado em 11 de Setembro do mesmo ano, pelo que era já de idade avançada. No período da preparação da sua viagem para Cabo Verde fez inúmeras petições ao Conselho Ultramarino e obteve despacho favorável de todos os pedidos financeiros, ajudas de custo e bens matérias, que no entanto eram apenas promessas, já que deviam ser pagos no almoxarifado de Cabo Verde, que por esta época carecia de fontes regulares de receita. Recebeu o alvará das faculdades. Em 1673 ainda estava em Lisboa e a fazenda já lhe devia mais de 1 conto de réis da sua ordinária, pelo partiu para Cabo Verde em condições precárias. Chegou a Santiago em Junho de 1673, vindo a falecer pouco tempo depois em 8 de Fevereiro de 1674, em companhia da sua «limitada família» para cujo sustento se viu obrigado a contrair dividas na corte no valor de mais de 2000 cruzados. Na Sé não tinha paramentos para celebrar ofícios solenes e não conseguiria obter os dois conjuntos completos de ornamentos que lhe haviam sido prometidos por conta do depósito financeiro destinado às obras da Catedral que havia sido desviado para outros fins. Completamente manietado material e financeiramente, viria a morrer nove meses depois de chegar a Santiago, quando se encontrava em visita pastoral pela cidade da Ribeira Grande. Chegara-se a tal extremo que foi amortalhado com um ornamento roxo já muito velho e usado. A câmara da cidade, em tom compungido, dá notícia ao rei da sua morte e refere que, apesar, do seu curto episcopado, o povo lhe tinha ficado «muito afeiçoado». Esta afeição não é de estranhar já que apesar deste curto episcopado a diocese estava vaga havia mais de 26 anos, fruto da rotura das relações entre Portugal e a Santa Sé, pelo D. Fr. Fabião deve ter conferido ordens sacras a diversos ordinandos que se encontrariam em situação de impasse à espera deste sacramento de exclusivo episcopal, uma vez que já não tinham meios para receber ordenação fora de Cabo Verde como sucedera no período de expansão económica durante o século XVI. Desta forma, a reactivação da actividade episcopal, mesmo que por um período muito curto, deve ter proporcionado a reactivação das ordenações e dos provimentos nos ofícios e dignidades eclesiásticas.

Bibliografia:
Anónimo (1784), Notícia Corográfica e Cronológica do Bispado de Cabo Verde, … edição e notas de António Carreira, Lisboa, Instituto Caboverdeano do Livro, 1985. ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, nova ed.preparada e dirigida por Damião Peres, vol. II, Porto-Lisboa, Livraria Civilização, 1968, pp. 686. PAIVA, José Pedro, Os Bispos de Portugal e do Império, 1495-1777, Coimbra, Imprensa da Universidade, 2006. REMA, Henrique Pinto, “Diocese de Cabo Verde”, História Religiosa de Portugal, dir. de Carlos Azevedo, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, vol. II, A-C, pp. 280-284. SOARES, Maria João, “A Igreja em tempo de mudança política, social e cultural”, História Geral de Cabo Verde, vol. III, coord. de Maria Emília Madeira Santos, Lisboa-Praia, IICT-INIPPC, 2002, pp. 340-341. SOUSA, António Caetano de, Catálogo dos bispos das igrejas de Cabo Verde, S. Tomé e Angola in Colleçam dos documentos, estatutos e memórias da Academia real da História Portugueza que neste anno de 1722 se compuzerão e se imprimirão por ordem dos seus censores, Lisboa, Pascoal da Sylva, 1722.

Autor: Maria João Soares


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