Antropónimos seta S. DIONÍSIO, D. Fr. António de (c.1615-1684)

11.º bispo de Cabo Verde.

Nasceu c. de 1615 e natural da Arrifana; Franciscano; mestre de Teologia na Universidade de Coimbra, onde estudou e leccionou durante 18 anos as matérias Teologia e Jurisprudência; foi vigário e confessor no mosteiro de Sª Clara de Coimbra. Foi eleito em 1668 como bispo de S. Tomé de Meliapor na Índia, mas não foi confirmado pela cúria; Foi apresentado como bispo de Cabo Verde em Setembro de 1675, tendo sido confirmado por Roma em 2 de Dezembro de 1675. Chegou à diocese em Junho de 1676, sendo acompanhado por vários frades franciscanos da província do Algarve. Ainda em Lisboa, alcançou várias mercês de acrescentamento a serem pagas na alfandega de Santiago com precedência, tal como ordem para que lhe fosse dada embarcação quando saísse em visitação pelas ilhas pessoalmente ou por intermédio de visitador. Estas verbas deviam a sair do fundo financeiro conhecido como «depósito da Sé», destinado à construção da catedral. Contudo, em Cabo Verde raramente alcançou pagamento em dinheiro de prata, como era prática antiga, tendo antes sido pago em barafulas, designação de um dos tipos de panos de fabrico local destinado ao trato dos Rios de Guiné, o que o obrigou a comerciar, nomeadamente escravos, e a contrair empréstimos. Para seu sustento viu-se constrangido a empenhar a prata da mitra e a vender os parcos bens que trouxera do reino. O panorama local era tal que, pouco tempo depois de chegar pediu renúncia do bispado, Considerou que a diocese tinha ganho tal má fama no reino, pelo que duvidava que algum clérigo reinól quisesse vir para Cabo Verde, um verdadeiro «purgatório». Visitou pessoalmente a ilha do Fogo em 1676 e excomungou o capitão-mor que não fazia caso algum da bula da Ceia e vendia armas aos gentios dos Rios de Guiné, além de ter incorrido em incesto e rapto de donzela; este oficial rebelou-se publicamente contra o bispo que nem sequer chegou a conseguir que fosse sentenciado pelos tribunais seculares. É um dos primeiros bispos à escala insular, tendo mandado prover párocos nas ilhas do Maio, Boa Vista, S. Nicolau e Santo Antão, além de ter enviado guisamentos para as respectivas igrejas tirados das de Santiago. Ordenou que os fiéis das ilhas do Barlavento concorressem para pagar as côngruas dos vigários e obteve reposta favorável das ilhas do Maio, Boa Vista e S. Nicolau. Recebeu em sua casa clérigos originários dessas ilhas aos quais providenciou ensino com vista à ordenação sacerdotal. Considerava que só os padres naturais de cada ilha podiam assegurar nas mesmas a assistência espiritual, dado que não conseguiam atrair clérigos de fora, mormente de Santiago, onde o clero se concentrava. Conforme era «estilo» na terra, o bispo esteve para ser eleito governador interino por morte do governador João Cardoso Pizarro em Agosto de 1676, que o indicara informalmente para lhe suceder. A câmara comprou os votos e saiu vencedora. O bispo recusou a interinidade por não ter ordem régia expressa nesse sentido e por considerar que o governo de Cabo Verde não era conforme à condição eclesiástica, sendo correntes as ilegalidades. O bispo denunciou que o governo interino da câmara e do ouvidor Francisco Pereira era largamente conivente com o contrabando. Cerca de 1676-77 terá ocorrido uma das habituais situações de fome que o bispo considera como um castigo para os muitos «roubos e latrocínios» que ocorriam; tentou junto da câmara acudir à situação propondo-se armar à sua custa um navio para os Rios de Guiné para importar milho, mas a municipalidade ignorou o seu pedido. D. Fr. Cristóvão, como era habitual, também se tornou malquisto do cabido, acusando vários cónegos de roubarem bens e paramentos da sé e outras igrejas de Santiago, tendo submetido vários deles à justiça eclesiástica, de que resultou a prisão de um eclesiástico e o degredo de outro para fora de Santiago. Vários cónegos, sobretudo os que estavam ausentes em Lisboa tentaram difamar o bispo na corte. O bispo pretendeu resolver o assunto da reactivação das obras da sé catedral, conforme lhe fora ordenador pelo rei e os irmãos da Misericórdia, onde funcionava a catedral, tentaram impedir a construção com promessas de alargamento da igreja desta irmandade. O bispo propôs a reconstrução da sé com um plano mais reduzido que o original iniciado c. de 1560 por D. Francisco da Cruz e a solução foi aceite. O bispo faleceu em 13 de Setembro de 1684.

Bibliografia:
Anónimo (1784), Notícia Corográfica e Cronológica do Bispado de Cabo Verde, … edição e notas de António Carreira, Lisboa, Instituto Caboverdeano do Livro, 1985. ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, nova ed.preparada e dirigida por Damião Peres, vol. II, Porto-Lisboa, Livraria Civilização, 1968, pp. 686. PAIVA, José Pedro, Os Bispos de Portugal e do Império, 1495-1777, Coimbra, Imprensa da Universidade, 2006. REMA, Henrique Pinto, “Diocese de Cabo Verde”, História Religiosa de Portugal, dir. de Carlos Azevedo, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, vol. II, A-C, pp. 280-284. SOARES, Maria João, “A Igreja em tempo de mudança política, social e cultural”, História Geral de Cabo Verde, vol. III, coord. de Maria Emília Madeira Santos, Lisboa-Praia, IICT-INIPPC, 2002, pp. 341-346. SOUSA, António Caetano de, Catálogo dos bispos das igrejas de Cabo Verde, S. Tomé e Angola in Colleçam dos documentos, estatutos e memórias da Academia real da História Portugueza que neste anno de 1722 se compuzerão e se imprimirão por ordem dos seus censores, Lisboa, Pascoal da Sylva, 1722.

Autor: Maria João Soares


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