Túmulos de D. Manuel I e D. Maria

Foto de Alexandra Pelúcia
 

Antropónimos seta MANUEL I, D. (1469-1521)

D. Manuel nasceu em Alcochete, a 31 de Maio de 1469, a faleceu em Lisboa a 13 de Dezembro de 1521. Foi nomeado duque de Beja, senhor da Madeira, dos Açores e de Cabo Verde, e governador da Ordem de Cristo, em 1484, sucedendo a seu irmão, D. Diogo. Subiu ao trono a 25 de Outubro de 1495, por morte de D. João II (r. 1481-1495), seu primo co-irmão. D. Manuel era filho do infante D. Fernando (1433-1470) e neto de D. Duarte (r. 1433-1438), tendo ganho o ceptro devido à extinção da descendência primogénita de seu avô, e à morte de seus cinco irmãos mais velhos. Por esta razão é recordado como o “Venturoso”. Damião de Góis, o cronista, reduziu a acção de D. Manuel I quase só à governação do império, o que criou uma imagem distorcida do seu reinado, pois além de dirigir a expansão ultramarina o monarca reformou profundamente o reino e interveio amiúde na política castelhana. Foi, de facto, um príncipe do Renascimento, que encontrou no império uma forma de afirmar o seu poder interno e de buscar prestígio no contexto da Cristandade.

D. Manuel I casou por três vezes, com D. Isabel (1470-1498), em 1497, com D. Maria (1482-1517), em 1500, ambas filhas dos Reis Católicos, e com D. Leonor (1498-1558), irmã de Carlos V, em 1518.

O senhorio das ilhas proporcionou-lhe grande riqueza, sobretudo devido ao açúcar da Madeira, bem como a aprendizagem de governar à distância. Em 1493, criou uma nova comenda da Ordem de Cristo assente nos rendimentos que a Ordem recebia pela vintena do comércio da Guiné. Nestes anos, D. Manuel já iniciara um forte programa de propaganda da sua imagem, associada à esfera armilar, que intensificou depois de subir ao trono.

Não tendo conseguido impor seu filho bastardo como seu herdeiro, D. João II reconheceu no seu testamento o direito de D. Manuel à sucessão, mas pedia-lhe que concedesse a D. Jorge, que já era governador das ordens de Santiago e de Avis, o ducado de Coimbra, mais o senhorio da ilha da Madeira e o governo da Ordem de Cristo. O rei que matara para impor a sua autoridade solicitava ao seu herdeiro que partisse o reino ao meio, mas D. Manuel manteve para si a Ordem de Cristo e a ilha da Madeira, colocando-as na órbita da Coroa.

Logo em 1496, D. Manuel I deu início ao seu programa reformista e prosseguiu a política expansionista desenvolvida por D. João II. Assim, em Julho de 1497 uma armada, comandada por Vasco da Gama, partiu em busca do caminho marítimo para a Índia e regressou passados dois anos com as tão ansiadas especiarias. Com o apoio de Génova e de Florença, Portugal desafiava a velha rota dos produtos asiáticos dominada pelos Mamelucos, sedeados no Cairo, e por Veneza. O Gama trouxe as especiarias e também as novas de que o Índico era controlado pelos mouros. Por isso, em Março de 1500 zarpou uma grande armada, sob o comando de Pedro Álvares Cabral, com ordens para atacar os rivais, mas que se dedicou primeira à exploração do Sudoeste do Atlântico. Ao mesmo tempo que Cabral fundeava junto à costa brasileira, outros homens da estrita confiança do rei, os Corte-Real, andavam pelas águas do Noroeste do Atlântico. Urgia saber a configuração do Oceano e reconhecer todas as terras que estariam sob a influência portuguesa pelo Tratado de Tordesilhas. O Atlântico Ocidental era uma região nevrálgica, desde as viagens de Colombo; no início do século XVI, também a Inglaterra se mostrava interessada em atingir a Ásia pela via do Ocidente. Portugal podia controlar a rota do Cabo, mas do outro lado do mar dependia da generosidade da Geografia, e em 1513 confirmou-se a existência da América e do Oceano Pacífico.

No início do século XVI, vivia-se um momento de euforia em Portugal; o súbito rasgar de horizontes, associado ao modo extraordinário como D. Manuel acedera ao trono, contribuiu para que surgisse a crença de que o rei era o eleito de Deus para elevar a Cristandade e eliminar os seus inimigos.

Enquanto Cabral negociava na Índia, D. Manuel I preparava uma armada contra o reino de Fez. A sua política expansionista foi marcada por esta duplicidade: o desejo de criar um império oriental, e a vontade de conquistar o reino africano. E para lá desses objectivos imediatos e “nacionais” foi sendo alimentada a esperança de que D. Manuel I poderia vir a chefiar a Cruzada contra a Terra Santa. Por duas vezes os emissários do rei cruzaram a Europa em busca de apoios para tal empresa.

As armadas enviadas ao Índico impuseram-se devido à sua superioridade estratégica e à eficácia do seu armamento. Face à hostilidade de Calicute, aliada dos mercadores do Mar Roxo, os Portugueses instalaram-se em Cochim e em Cananor. Em 1505, D. Manuel I instituiu o vice-reinado da Índia, procurando assim criar um governo estável no Oriente. D. Francisco de Almeida, o primeiro vice-rei, consolidou a presença portuguesa no Índico Ocidental, tendo mesmo anulado a reacção dos Mamelucos ao destruir a armada enviada pelo Cairo, na batalha naval de Diu, a 3 de Fevereiro de 1509. Em Marrocos, D. Manuel I enfrentou inicialmente a oposição dos Reis Católicos à intervenção portuguesa na região. No entanto, após a morte de Isabel, a 26 de Novembro de 1504, Castela mergulhou numa longa crise política, e D. Manuel I pôde realizar uma política de conquistas sistemáticas. A dominação de Safim, em 1508, a conquista de Azamor, em 1513, e o triunfo na batalha dos Alcaides, em 1514, proporcionaram uma imagem de invencibilidade dos Portugueses. Destacou-se a acção de Nuno Fernandes de Ataíde, capitão de Safim (1510-1516), que criou uma vasta zona de mouros de pazes e a hoste portuguesa surgiu por duas vezes às portas de Marraquexe.

Os triunfos do Ataíde foram contemporâneos das campanhas de Afonso de Albuquerque na Ásia. D. Francisco de Almeida só lhe entregara o governo depois de graves incidentes. Com efeito, a governação manuelina foi sempre afectada por uma forte tensão política que, de uma forma simplificada, opunha os partidários da centralização aos que advogavam uma menor intervenção da Coroa e que se opunham à ideia de transformar a Expansão marítima numa cruzada permanente. No início do reinado, registava-se ainda a clivagem entre os apoiantes de D. Jorge e os fiéis ao rei, e nos jogos complexos da política cortesã havia ainda que considerar os interesses pessoais de cada fidalgo.

Albuquerque não se empenhou inicialmente no assalto ao Mar Roxo, como lhe solicitara o rei, mas através de vários subterfúgios, adiou essa expedição e conquistou Goa em 1510, e Malaca em 1511. Em 1512 consolidou o domínio de Goa e em 1513 atacou, finalmente o Mar Roxo, mas foi mal sucedido. Depois, obteve a conquista definitiva de Ormuz, em 1515. Nesse ano, o rei não o reconduziu no governo e enviou Lopo Soares de Albergaria como seu substituto. Com as suas conquistas, Albuquerque dera uma dimensão asiática ao Estado da Índia, dotando-o de portos chave que asseguravam o controlo de rotas vitais e a auto-suficiência económica da Índia Portuguesa. No entanto, o monarca olhava ainda para o Oriente por uma perspectiva mediterrânica, centrada no sonho da Cruzada. Essa diferença de perspectiva, aliada à intensa luta política que persistia na corte, onde Albuquerque tinha inúmeros inimigos, explicam a decisão de D. Manuel I. Lopo Soares boicotou os planos cruzadísticos do monarca e o ímpeto militar na Ásia afrouxou; muitos fidalgos dedicaram-se então ao comércio, no que foi referido como a “grande soltura”. Ao mesmo tempo que a dinâmica expansionista na Ásia se alterava, em Marrocos a vaga portuguesa começava a recuar: em 1515 a tentativa de construir uma nova fortaleza na Mamora fracassou e culminou num enorme desastre com a morte de uns 5.000 homens; em 1516, Nuno Fernandes de Ataíde pereceu em combate e o poderio português foi-se confinando ao perímetro das praças sob seu controlo.

Em 1518, D. Manuel I retomou sua política mais centralizadora no Oriente com o envio de Diogo Lopes de Sequeira. Foi este governador que estabeleceu os primeiros contactos diplomáticos com a cristandade etíope. Julgava-se que o rei da Etiópia era poderosíssimo e que estaria disponível para participar na guerra santa. Assim, no final de 1521, o monarca estaria particularmente entusiasmado. Preparava-se para distribuir um livro, a Carta das Novas, em que anunciava a descoberta do Preste João, tinha esperança de ter conseguido dominar uma nova rota de especiarias entre o Sueste Asiático e a China e, no Outono, Veneza manifestara interesse em comprar-lhe por atacado a carga de pimenta que vinha da Ásia. 26 anos depois de subir ao trono, D. Manuel parecia estar a vencer nas duas frentes principais da sua política expansionista – estaria prestes a desencadear a Cruzada e tinha Veneza a seus pés suplicando-lhe especiarias. No final do ano, porém, a doença sobreveio e o monarca faleceu subitamente. D. João III alteraria rapidamente o rumo da Expansão Portuguesa.

Durante o seu reinado, as receitas do trato ultramarino cresceram imenso. As especiarias foram a faceta mais visível desse fenómeno, mas também proporcionavam despesas avultadas, devido aos custos da Carreira da Índia. A riqueza de D. Manuel I vinha-lhe afinal do Atlântico: o açúcar, os escravos e, sobretudo, o ouro da Mina chegavam a Portugal em pequenos navios, manobrados por tripulações pouco numerosas e obtidos por troca com mercadorias baratas. O fluxo do ouro da Mina estava no auge. O rei ganhou fama pelas façanhas dos seus capitães no Oriente, alimentou sonhos de conquista dentro da tradição mediterrânica, mas foi um monarca riquíssimo (como se comprova pelo seu extraordinário legado patrimonial) por via dos seus domínios atlânticos.

Refira-se ainda que D. Manuel I usou o exotismo do Ultramar para se distinguir no seio da Cristandade. Ficou célebre a embaixada enviada a Roma em 1513, que incluía um elefante; foi por sua via que a Europa conheceu as porcelanas chinesas ou que constatou que o unicórnio afinal não era um elegante equídeo, mas antes uma besta corpanzuda, cuja imagem foi celebrizada rapidamente por Dürer.

Bibliografia:
AUBIN, Jean, Le Latin et l’Astrolabe. Recherches sur le Portugal de la Rennaissance, son Expansion en Asie et les Relations Internationales, Paris, Centre Culturel Calouste Gulbenkian, 2006. COSTA, João Paulo Oliveira e, D. Manuel I, um Príncipe do Renascimento, Lisboa, Temas & Debates, 2007. PEREIRA, Fernando António Baptista, “D. Manuel, espelho de Salomão, inventor do mundo” in História de Portugal dos Tempos Pré-Históricos aos Nossos Dias (dir. de João Medina), 15 vols., Amadora, Ediclube, 1993, vol. IV, pp. 84-98. SUBRAHMANYAM, Sanjay, A Carreira e a Lenda de Vasco da Gama, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998. THOMAZ, Luís Filipe, « L’idée impériale menualine »in La Decouverte, le Portugal et l’Europe. Actes du Colloque. Paris, Centre Culturel Portugais, 1990. Autor : João Paulo Oliveira e Costa


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