Antropónimos seta CRUZ, Frei Gaspar da (Évora ? – Setúbal, 1570)

Frade dominicano, a sua actividade desenrolou-se no Oriente durante duas décadas consecutivas. A partir da segunda metade do séc. XVI, a visão europeia do mundo é completamente abalada com o conhecimento que se ia reunindo sobre a realidade asiática. A circulação desse conhecimento em Portugal é dificultada mercê do controlo oficial sobre a actividade editorial com o objectivo de manter algum secretismo sobre as rotas comerciais e, portanto, em Lisboa é desencorajada a publicação de livros ou panfletos. A situação só se altera quando o domínio português no Oriente começa a perder influência (para os Holandeses) mas era tarde para inverter a ascendência que os centros no Norte da Europa tinham, entretanto, adquirido. Este enquadramento talvez explique por que razão a obra de Gaspar da Cruz Tratado em que se contam muito por extenso as Coisas da China, com suas particularidades, e assim do Reino d’Ormuz…impresso em Évora por André Burgos em 1570 (ou 1569?), sendo a primeira obra impressa na Europa sobre a China, não tenha tido grande circulação, só voltando a ser reimpressa no séc. XIX. Outros factores que podem explicar a sua menor difusão prendem-se com a data de edição que foi a do ano da peste, justamente conhecida como “Peste Grande”, com o ter sido publicada em português, língua com pouco impacto na Europa, e com a desactualização rápida do conteúdo perante a chegada contínua de novas informações. Frei Gaspar da Cruz desenvolveu a sua actividade como missionário no Extremo Oriente: em 1548 ruma à Índia com outros companheiros e estabelece residências em Goa, Chaul e Cochim; visita Ceilão e parte para Malaca, onde em 1554 funda um convento da Ordem de S. Domingos; passa depois ao Cambodja em 1555-1556 e, através do Laos, chega à China em 1556, primeiro Cantão, tendo depois obtido autorização dos mandarins para se deslocar a Kuangtung. Entre 1557 e 1559 Frei Gaspar da Cruz viaja de novo rumo a Malaca e em 1560 integra um grupo de dominicanos com destino a Ormuz para pregar o Evangelho. A estadia não terá correspondido às expectativas de missionação porque o rebanho era constituído pelos soldados estacionados na fortaleza e, assim, em 1563 deixa Ormuz. Talvez em direcção à costa ocidental da Índia: em 1564 está em Goa donde acaba por partir com destino a Lisboa. Último destino onde contrai a peste vindo a falecer em Setúbal em 1570.

O percurso de Frei Gaspar da Cruz sugere que a sua deslocação obedecia a uma missão de prospecção no sentido de averiguar da predisposição das populações locais para aceitarem a evangelização. Nem sempre as incursões do frade dominicano recolheram a aprovação dos jesuítas, que consideravam contraproducente o excesso de zelo demonstrado pelo dominicano. A comprová-lo, estão as curtas estadias de Frei Gaspar da Cruz quer em Malaca quer no Cambodja denunciando falta de adaptação e, possivelmente, intransigência apostólica. A experiência evangelizadora no Cambodja é de tal modo frustrante que o próprio Frei Gaspar da Cruz deixa o Cambodja desiludido, considerando que as populações locais não estavam disponíveis para a conversão. No esteio de mercadores portugueses, acaba por partir para a China e aportar a Lampacau, ilha da baía de Cantão, procurada pelos navios portugueses. Mau grado o ambiente pouco propício, o tempo passado no Sul da China permitiu-lhe observar e recolher a informação necessária para a preparação do Tratado. Como defenderão os Jesuítas, também Frei Gaspar da Cruz perfilha a opinião que só uma embaixada em Pequim proporcionará as condições indispensáveis para o trabalho de missionação.

O Tratado insere-se no género literatura de viagens e, como obra individualizada, apresenta-se como uma concatenação feliz entre a utilização de fontes, nomeadamente os escritos de Galiote Pereira, soldado-mercador que por volta de 1550 é feito prisioneiro na China com outros portugueses, e a observação directa servindo, depois, como inspiração a autores como o espanhol Mendoza ou o português Fernão Mendes Pinto. O Tratado é o primeiro livro da autoria de um ocidental a dar uma visão global e detalhada da China sobre cuja sociedade não esconde a admiração. A informação nele transcrita foi recolhida durante a sua estadia em Cantão e também bebida em Galiote Pereira origem que não escamoteia. “Enquanto o fidalgo lusitano [Galiote Pereira] se limitara a reunir um conjunto desconexo de apontamentos, escritos ao correr da pena, sem grandes preocupações de ordenação formal, o nosso autor [Frei Gaspar da Cruz] conjugou-as com as suas próprias indagações, dando ao conjunto uma organização sistemática e coerente.” (LOUREIRO 1997 : 31). Tanto os relatos de Pereira como de Cruz vão, décadas mais tarde, inspirar e fornecer informações a Escalante ou Mendoza. Até à publicação da obra de Bernardino de Escalante Discurso de la navegacion que los Portugueses hazen à los reinos y Províncias del Oriente, y de la noticia q se tiene de las grandezas del Reino de la China em Sevilha oito anos depois (1577) nada mais se publica sobre a China enquanto a obra de Juan Gonzalez de Mendoza Historia de las cosas mas notables, ritos y costumbres del gran Reyno de la China só sai do prelo em Roma em 1585. A obra de Mendoza, resultado duma encomenda papal, goza de grande circulação na Europa embora em si mesma não represente mais do que uma síntese do que até então se sabia na Europa sobre a China, com responsabilidades para João de Barros e particularmente para Gaspar da Cruz. O grande problema de Mendoza é ele não mencionar as suas fontes e muito menos ainda explicar os seus critérios de selecção. Estabelece-se, pois, uma cadeia interligada de informação que passa por cronistas, viajantes e religiosos portugueses e cujo pico máximo é representado por Frei Gaspar da Cruz. Nem mesmo a epistolografia jesuíta consegue competir com os apontamentos vivos do quotidiano que Gaspar da Cruz regista. O Tratado, publicado mais de cinquenta anos antes da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto (1614), como relato fidedigno e como fonte, conquista proeminência pela utilização que dele é feita.

O Tratado não vem revelar uma realidade desconhecida; a sua novidade consiste na visão de conjunto sobre todos os aspectos da vida na China, directamente experimentada por Frei Gaspar da Cruz e que o marcaram de forma positiva, excluindo as questões ligadas à fé. “A curiosidade do frade dominicano era verdadeiramente insaciável, e poucos aspectos houve da vida chinesa que tivesse deixado por investigar” (LOUREIRO 1997 : 37). O frade dominicano passeia e visita, observa, regista, conclui e escreve. Ao contrário do que acontecerá com a Peregrinação, no Tratado o discurso é feito na primeira pessoa, a do autor, com o propósito de dar a conhecer o que é diferente cumprindo, certamente, os objectivos políticos e religiosos que lhe teriam sido atribuídos (MARGARIDO 1977 : 170). Enquanto Frei Gaspar da Cruz descreve como observador, Fernão Mendes Pinto participa como autor. A dimensão intercultural não é detectável em Gaspar da Cruz, mas isso não diminui o imenso interesse do Tratado como relato de viagem. “Ao contrário de muitos dos seus antecessores (…) indaga por conta própria, aprofunda as questões, procura respostas, não se limitando a registar de uma forma impressionista os factos com que depara “ (LOUREIRO 1997 : 52). O Tratado e o seu vasto manancial, a sua vivacidade e o seu pormenor só são, porventura, ultrapassados quando começam a chegar à Europa as notícias enviadas pelos Jesuítas depois do seu estabelecimento em Pequim (1583). Haviam decorrido mais de duas décadas.

Bibliografia
LACH, Donald F., Asia in the Making of Europe. Chicago : University of Chicago Press, 1965-1994. 3 v. LOUREIRO, Rui, “Introdução”. In CRUZ, Gaspar da – Tratado das Coisas da China (Évora, 1569-1570). Lisboa : Cotovia : CNCDP, 1997. 285 p. (p. 13-54). MACHADO, Diogo Barbosa, Bibliotheca Lusitana Historica, Critica, e Cronologica…Lisboa: Na Officina de Ignacio Rodrigues, 1741-1759. 4 v. (v. 2, 1747, p. 347-348). MARGARIDO, Alfredo, La multiplicité des sens dans l’écriture de Fernão Mendes Pinto et quelques problèmes de la littérature de voyages au XVIe siècle. Paris : Fundação Calouste Gulbenkian, 1977. p. 159-199 (Separata, Arquivos do Centro Cultural Português; 11). SILVA, Inocêncio, Diccionario Bibliographico Portuguez. Lisboa : Imprensa Nacional, 1858-1911. 9 v., 20 v. Suplemento (v. 3, p. 128; v. 9, p. 413).

Autor: Maria Luísa Cabral