Antropónimos seta BAHAREM, António Correia (1487/88-1566)

Nascido cerca de 1487 ou 1488, António Correia ganhou notoriedade por via dos seus feitos militares no Indico, que lhe granjearam a fama e lhe permitiram adicionar ao seu apelido o nome de Baharem, em honra do local da sua maior vitória.

Descendente de uma ilustre linhagem, com tradição de serviços à Coroa, o seu pai Aires de Correia, cavaleiro da Casa Real, exerceu o cargo de feitor na armada de Pedro Alvares Cabral, com o objectivo de instalar uma feitoria portuguesa na Índia. O jovem António Correia acompanhou o seu pai nesta viagem, tendo sobrevivido aos confrontos que deflagraram em Calecut, que impediram a instalação da feitoria nesta cidade e vitimaram vários portugueses, entre os quais Aires Correia.

António Correia só torna a ser mencionado aquando da sua presença numa armada dirigida a Safim, no Norte de África, em 1510, e posteriormente pelo seu papel na defesa de Goa, em 1512.

Terá, no entanto, regressado ao Reino, antes de ter retomado as suas actividades no Oriente em 1518, ano em que o seu primo Diogo Lopes de Sequeira assumiu o cargo de governador do Estado da Índia. É também este o ano da concessão de uma licença régia que permitia a António Correia e ao seu irmão Aires Correia comerciarem dois quintais de marfim, cuja transacção era monopólio da Coroa.

De volta à Índia exerceu brevemente o cargo de capitão da fortaleza de Cochim, em substituição do comandante efectivo, Aires da Silva. Foi desta cidade que partiu, em Maio de 1519, encarregado de uma expedição militar, comercial e diplomática no Índico Oriental. Comandando uma pequena armada rumou a Malaca, aliviando a cidade do cerco a que era submetida pelos repetidos ataques das forças do sultão Mahmud, soberano malaio a quem esta fora conquistada oito anos antes. Daí zarpou em missão diplomática ao reino de Pegu, na costa birmanesa, conseguindo a aliança do soberano local, essencial para o abastecimento de Malaca, praça à qual retornou com mantimentos, tendo subsequentemente comandado um bem sucedido ataque às forças malaias, que levou à sua retirada e à destruição da fortaleza de Pago. Regressado à Índia, em inícios de 1521, António Correia acompanhou o governador Diogo Lopes de Sequeira na tentativa de instalação de uma fortaleza em Diu. Fracassada esta tentativa, a armada portuguesa retirou-se para passar o Inverno no reino vassalo de Ormuz, que se via à época confrontado com a sublevação do reino seu tributário de Baharem.

Como forma de auxílio a Ormuz e de afirmação da autoridade portuguesa, foi enviada uma expedição liderada por António Correia que, a 27 de Junho de 1521, debelou a revolta numa batalha em que pereceu o próprio rei de Baharem e devido à qual António Correia, também ele ferido no combate, adquiriu o seu sobrenome e escudo de armas, concedido por carta régia de 1540.

Em finais de 1521, apesar da substituição de Diogo Lopes de Sequeira enquanto governador, António Correia permaneceu na região de Chaul, assumindo as funções de capitão-do-mar e derrotando o ataque de uma armada guzerate. Com o fim do ano de 1521 terminou, igualmente, o capítulo oriental da vida de António Correia, que regressou definitivamente ao Reino.

Em Portugal, António Correia manteve-se, no entanto, ligado às questões orientais, sendo que pertenceu ao conselho reunido por D. João III para debater a disputa com a Monarquia Hispânica pela posse das Molucas.

Mais tarde, depois de ter tomado por esposa D. Isabel de Castro, filha do desembargador do Paço do rei D. Manuel, António Correia manteve a sua actividade militar, comandando diversas armadas na costa portuguesa e marroquina entre 1532 e 1542.

Por conseguinte, Correia pôde, ao longo das décadas, acumular um vasto património imobiliário, por concessão régia e por consideráveis heranças familiares, a que se juntaram as mercês concedidas pela Coroa, como a comenda de Santa Maria de Ulme, em 1558, e o hábito da Ordem de Cristo, em 1564. Veio a falecer dois anos mais tarde, em 1566, já de avançada idade.

Bibliografia:
COELHO, Sandra, “António Correia”, in Descobridores do Brasil – Exploradores do Atlântico e Construtores da Índia, João Paulo Oliveira e Costa (coord.), Lisboa, SHIP, 2000, pp. 353-382. THOMAZ, Luís Filipe, De Ceuta a Timor, Lisboa, Difel, 1998.

Autor:
José Ferreira