Antropónimos seta PORTUENSE, D. Fr. Vitoriano (1651-1705)

12.º bispo de Cabo Verde.

Nasceu no Porto em 1651. Tinha como nome de baptismo Vitoriano da Costa e era filho de Manuel da Costa Neves e Maria Barbosa de Barros, gente abastada. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Entrou no convento de S. António de Aveiro aos 23 anos em 1674 e professou em 1677, como franciscano da província da Soledade. Foi consagrado pela historiografia como um dos mais carismáticos bispos de Cabo Verde. Ignora-se a data da sua apresentação, confirmação em consistório e sagração. Fez-se acompanhar por uma comitiva de clérigos do bispado do Porto que viria a prover em canonicatos, tendo alguns deles se ausentado para o Reino. Em 1687 já se encontrava em Cabo Verde e em Setembro desse ano assumiu o governo interino por eleição em câmara, devido à «deixação» do governo por parte de Veríssimo Carvalho da Costa. Esta interinidade de cerca de um ano foi muito acidentada, sendo acusado de misturar num todo indistinto os governos civil e eclesiástico, desrespeitando a jurisdição do ouvidor, exercício este que o tornou desavindo com a sociedade local. O seu governo considerado «despótico» e «absoluto» viria a ser objecto de sindicância. No seguimento do seu antecessor, tomou a decisão arrojada de concluir a sé catedral cujas obras tinham sido interrompidas depois da morte do seu iniciador D. Francisco da Cruz, tendo recebido aval régio. Tal decisão era contrária à vontade dos moradores e invulgar numa situação de declínio comercial em que a sociedade carecia de meios financeiros para custear a obra, segundo o desmesurado plano inicial. D. Fr. Vitoriano não se demoveu e transformou-se temporariamente em mercador enviado escravos e bens preciosos da mitra para serem vendidos em Lisboa, onde seriam comprados os materiais. Em 1693 o grosso da obra já estava terminada, faltando apenas concluir as torres, cobrir o corpo da igreja e terminar o coro, tendo também construído o aljube eclesiástico. Depois disso transferiu o cabido e todos os ornamentos da igreja da misericórdia, que até aí funcionara como catedral para a sé nova, o que o incompatibilizou com a sociedade local que até aqui tinha conseguido exercer alguma pressão sobre o cabido. O bispo iniciou uma grande disputa com a irmandade da Misericórdia, pretendendo visitar a igreja e tomar contas à irmandade. O temor da hierarquia local a acção fiscalixadora do bispo era tal que se gerou um pequeno conflito armado a este respeito, tendo a irmandade apelado para o rei, dado que estas instituições eram da imediata protecção régia. Só a intervenção régia travou D. Fr. Vitoriano que devido a estas actuações se tornou persona non grata nas ilhas. Dado que tinha muito pouco apoio no cabido, à excepção dos capitulares que nomeara pessoalmente, dado que tinha sido agraciado com o alvará das faculdades, este bispo estabeleceu uma aliança estratégica com os seus confrades franciscanos da província da Soledade a quem estava entregue a missionação nas ilhas e Rios de Guiné. São estes frades que o acompanham nas visitações que fez a todo o bispado em 1693, tendo também sido o primeiro e único bispo de Cabo Verde a deslocar-se aos Rios de Guiné em 1694 e 1697 com vista à cristianização do rei de Bissau. Nomeou os seus confrades franciscanos para as paróquias, dado considerar o clero local incapaz, pelo que cessou as ordenações dos filhos da terra, afirmando mesmo que tinha encontrado vários cristãos-novos. Os clérigos reinóis, mesmo quando providos nas mais altas dignidades do cabido fugiam para o reino sem licença do ordinário. Sentenciou vários clérigos por concubinagem. Considerava que a única solução para a diocese era a criação de um seminário que educasse ordinandos para os tornar aptos para o sacerdócio. Já no final do episcopado iniciou a construção de um seminário reutilizando as instalações do paço episcopal, projecto que sairia gorado após a sua morte. O modo que encontrou para atingir a elite local foi o da denúncia das situações de concubinagem e mancebia e de maus-tratos aos escravos, além de lhes tentar impor uma pena por não baptizarem os escravos e não os libertarem para aprender doutrina, tendo mandado publicar carta pastoral para o efeito. Desenvolveu igual diatribe contra a companhia de Cabo Verde e Cacheu pela prática de usura e por embarcar escravos sem baptizar, tendo o bispo impedido pessoalmente o embarque de alguns, facto que motivou uma decisão régia para que D. Fr. Vitoriano se abstivesse deste tipo de actuação. No final do seu episcopado já só se dedicava a exercícios espirituais no convento de S. Francisco e a sair em visitação pela ilha de Santiago, tendo iniciado as igrejas de S. Salvador no Picos e em terras de Boaventura. Revela-se desiludido com a pouca eficácia da acção episcopal e pede ao rei a renúncia do «grilhão» do bispado. Viria a falecer em Janeiro de 1705 ficando sepultado na sé catedral no esquife episcopal.

Bibliografia:
ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, nova ed.preparada e dirigida por Damião Peres, vol. II, Porto-Lisboa, Livraria Civilização, 1968, pp. 686. GONÇALVES, P.e Manuel Pereira, “ D. Frei vitoriano Portuense (Primeiro Bispo a visitar as cristandades da Guiné no século XVII)”, Mare Liberum, 1995, nº 10, pp. 369-380. MOTA, A. Teixeira da, As viagens do bispo D. Fr. Vitoriano Portuense à Guiné e a cristianização dos reis de Bissau, Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, “Memórias, n.º 14”, 1974. PAIVA, José Pedro, Os Bispos de Portugal e do Império, 1495-1777, Coimbra, Imprensa da Universidade, 2006. REMA, Henrique Pinto, “Diocese de Cabo Verde”, História Religiosa de Portugal, dir. de Carlos Azevedo, Lisboa, Círculo de Leitores, 2001, vol. II, A-C, pp. 280-284. SOARES, Maria João, “A Igreja em tempo de mudança política, social e cultural”, História Geral de Cabo Verde, vol. III, coord. de Maria Emília Madeira Santos, Lisboa-Praia, IICT-INIPPC, 2002, pp. 346-363.

Autor:Maria João Soares