Antropónimos seta SILVA, Pedro da (1580-1639)

Vice-rei da Índia (1635-1639).

Nasceu cerca de 1580, sendo filho de Fernão da Silva, alcaide-mor de Silves e vedor da Fazenda Real, e de D. Madalena de Lima. O seu avô paterno, D. Aires da Silva, foi bispo do Porto. Filho segundo desta união, foi o seu irmão Rui Pereira da Silva quem herdou a alcaidaria-mor de Silves. Os seus restantes irmãos consorciaram-se todos com membros de nobreza não titulada, à excepção de D. Luísa da Silva Pereira, que se casou com um outro D. Pedro da Silva, 1º conde de São Lourenço e governador do Brasil, exactamente nos mesmos anos que o cunhado já vice-rei da Índia. Membro do Conselho Real, partiu uma primeira vez para a Ásia em data incerta, sabendo-se apenas que foi capitão de Malaca. Aquando do regresso, foi nomeado governador da Madeira. Indigitado vice-rei da Índia por carta régia, de 28 de Fevereiro de 1635, encontrando-se naquele tempo recolhido no convento da Ordem Terceira de São Francisco, perto de Monchique. Não obstante alguma resistência, Pedro da Silva acabou por partir de Lisboa a 13 de Abril, aportando em Goa a 8 de Dezembro, e recebendo de imediato o governo do 4º conde de Linhares, D. Miguel de Noronha. Na viagem foi acompanhado por aquele que viria a ser o seu sucessor, D. António Teles de Meneses e Silva, que mais tarde viria a ser o 1º conde de Vila Pouca de Aguiar.

Os quatro anos de governação de Pedro da Silva ficaram marcados pela total incapacidade do vice-rei em acudir às diversas frentes em que o Estado da Índia estava a ser atacado pelos seus inimigos. D. Pedro iniciou o seu vice-reinado com a confissão: “Perdoe a Deus quem me propôs para esta ocupação, porque eu não sou para ela”. De facto, a figura que mais viria a destacar-se durante o seu governo foi a do já referido seu sucessor. Em Março de 1636, D. António Teles de Meneses saiu de Goa com uma armada, em busca da esquadra neerlandesa que fundeava perto de Surrate. Num primeiro confronto bem sucedido, dois navios neerlandeses foram derrotados. Todavia, os restantes navios lograram escapar e, quando em Novembro D. António os encontrou de novo, os capitães da sua armada não o deixaram combater. Note-se que, quando D. António encontrou a esquadra neerlandesa em Novembro, esta encontrava-se a bloquear Goa, um acontecimento que se repetiria com frequência durante o governo de Pedro da Silva. Apesar das dificuldades em quebrar este bloqueio, o novo arcebispo de Goa, o franciscano D. Frei Francisco dos Mártires, logrou chegar ao seu posto, vindo embarcado na armada da Índia daquele ano. Era o arcebispo outro dos nomeados para suceder ao vice-rei caso algo lhe acontecesse. Mas o ano de 1636 não findaria sem os combates em Madagáscar, que opuseram os Portugueses de Moçambique ao antigo rei de Mombaça, que havia sido expulso do seu reino na sequência de uma revolta armada que liderou durante o vice-reinado do 4º conde de Linhares. As perseguições e combates encabeçados por Roque Borges, durante todo o ano de 1636, reveleram-se infrutíferas na captura do soberano, limitando-se a saques aos apoiantes daquele rei em Madagáscar.

O anos de 1637 a 1639 viriam a ser ainda mais problemáticos, pois neles perfilaram-se as duas alianças que levariam à expulsão dos Portugueses de Malaca, em 1641, e do Ceilão, em 1658. No Extremo Oriente, a conjuntura interna japonesa manter-se-ia especialmente agitada, facto que motivaria a expulsão dos Portugueses do arquipélago nipónico, em 1639. No entanto, o vice-rei não teve ocasião de intervir nesta questão devido aos problemas então surgidos na Índia. De facto, em Janeiro e Fevereiro de 1637, a vitória de D. António Teles de Meneses sobre uma esquadra neerlandesa, nas imediações de Goa, foi alento de pouca duração, visto que, no ano seguinte, o vice-rei foi informado dos desentendimentos entre o capitão de Malaca e o general daquela região. O sultão do Achém, aproveitando a situação, aprisionou de imediato o embaixador português estante na sua corte, Francisco de Sousa e Castro, e ordenou a execução de alguns Portugueses. Por esta fase, já a aliança entre o sultão do Achém e os Neerlandeses, que viria a expulsar os Portugueses daquela praça, era conhecida em Goa. Pedro da Silva procurou organizar um socorro à praça, na eminência de novo cerco, mas este socorro teve de ser dividido em função da morte de um outro general em Damão, à qual uma vez mais acudiu D. António Teles de Meneses. Foi ainda este que em Baçaim confirmou as capitulações das pazes assinadas com o Império Mogol. Novos problemas emergiram igualmente no Ceilão, sem que aí seja conhecida qualquer intervenção do vice-rei. O novo soberano entronizado de Cândia, que nos anos anteriores se havia oposto sistematicamente à presença portuguesa na ilha, aliou-se, em Maio de 1638, com os Neerlandeses. O acordo previa a expulsão da ilha dos Portugueses e o total monopólio europeu desta pelos Neerlandeses. A situação tornou-se ainda mais crítica quando o general Diogo de Melo e Castro foi derrotado e morto por forças de Cândia nos inícios de 1638. A incapacidade de reacção de Goa encorajou a coligação VOC-Cândia a avançar sobre várias praças portuguesas. Assim, logo em 1640, caíram Negombo e Gale. O vice-reinado de Pedro da Silva terminou com a sua morte, em 24 de Junho de 1639, envolta em polémica. Não só antes de falecer o vice-rei havia pedido um empréstimo ao Senado de Goa, por alegadamente não desejar morrer pobre, como feito um inventário dos bens do vice-rei, após a sua morte, foram encontradas avultadas posses que este adquiriu durante os quatro anos do seu governo.

Bibiliografia:
SOUSA, Manuel de Faria e, Ásia Portuguesa, volume VI, tradução de Maria Vitória Garcia Santos Ferreira, vol. VI, 4º Parte, cap. XVI, Porto, Livraria Civilização, 1947. SUBRAHMANIAN, Sanjay, “Uma década desastrosa: a Ásia Portuguesa na década de 1630” in O Império Asiático Português 1500-1700 - Uma História Política e Económica, Lisboa, Difel, 1993, pp. 232-245. ZÚQUETE, Afonso, Tratado de Todos os Vice-Reis e Governadores da Índia, Lisboa, Editorial Enciclopédia, 1962.

Autor: Nuno Vila-Santa